Papo de mulher

Viciada em moda, Chiara Manfrinato descreve o papel singular desempenhado por tradutores de moda e cria um paralelo entre essa área e o gênero chick lit .

Vestida para matar

O consultor Vitor Brasil discute a popularidade crescente da moda e cultura brasileiras e como uma tradução eficiente pode ajudar os estilistas locais a atingir novos mercados.

Inventando moda
Ronald Villardo

Ou como levar um tradutor à loucura...

 

Ao ler a edição de 30 de abril do “Caderno Ela”, do jornal O Globo, me deparei com a frase “mulheres modernas com saias tipo ânfora e blusas de gola alta com estampas de poás”. Imediatamente pensei em como esta frase terá sido escrita no original, em inglês, já que se tratava de uma reportagem comprada da agência do jornal The New York Times, assinada pela jornalista de moda Cathy Horyn.

Por três anos, ocupei a posição de editor-adjunto de um site especializado em moda. Uma das minhas atribuições era traduzir textos das agências internacionais para o português. E uma das maiores dificuldades neste tipo de tarefa era decodificar para falantes de língua portuguesa os adjetivos com que os ditos especialistas na moda internacional tratavam o assunto. É comum nos textos em língua inglesa dizer que uma nova coleção apresentada em um desfile é “fresh”, “trendy”, “cool”. E fica por isso mesmo. Norte-americanos e ingleses, por exemplo, parecem satisfeitos com as análises-de-uma-única-palavra. Brasileiros não. É preciso mais do que um simples adjetivo para que um trabalho supostamente artístico e certamente comercial como uma coleção de biquínis encontre sua mais completa tradução.

É comum dizer que aquelas palavras são praticamente intraduzíveis. Não por incompetência do tradutor, mas porque trazem implícitos significados que remetem a um universo semântico maior que suas meras definições como apresentadas nos dicionários. “Fresh” não é apenas “fresco, novo”. É também jovem, leve, pra cima. “Trendy” não é somente o que segue uma tendência, mas também o que carrega o aval de uma dita modernidade e portanto tem sua própria “usabilidade” (ou seria melhor dizer wearability?) avalizada. Quem é trendy, se veste e age como trendy. Viu como é difícil? Nem vou tentar explicar “cool”.

A matemática dos adjetivos nos textos de moda é tão complexa que gera até comentários bem-humorados entre os que têm alguma familiaridade com o meio. Como aquela piada em que Donatella Versace tenta descrever sua nova coleção, mas os adjetivos são poucos para tal tarefa.

“My collection is totally colorful… totally young... totally totally!!!” (leia com sotaque italiano, por favor)

As traduções de textos de moda, portanto, aparentemente fáceis diante do uso de adjetivos simples, oferecem os mais diferentes tipos de obstáculos ao tradutor-aventureiro. A subjetividade de muitos dos conceitos que invadem as publicações internacionais de moda podem deixar os tradutores de cabelos em pé (tente traduzir esta frase para qualquer língua).

       
Independentemente da época com a qual você esteja trabalhando,
a terminologia de moda pode
deixá-lo de cabelo em pé.


O domínio de tais conceitos é o pulo do gato para a tradução dos textos de moda. É preciso que o tradutor saiba o que é um desfile, como pensa um fashionista (sim, eles pensam) e por fim, detenha fluência na língua franca do mundo da moda. Agora, o que realmente importa: você sabe como se diz nervura em inglês? E rolotê? Não sabe o que é um rolotê? Ora, francamente...

 
Ronald Villardo é jornalista de moda e vida noturna há dez anos. Foi repórter do Jornal do Brasil; colaborador da Folha de S. Paulo; editor-assistente da revista “Moda” da Folha. Atualmente é colaborador do “Caderno Ela”, do jornal O Globo e redator e apresentador da coluna “Nitelife”, na rádio Paradiso FM. Também é tradutor e professor de língua inglesa, graduado em Letras pela Universidade Santa Úrsula. E tem a plena certeza de que moda e noite são definitivamente assuntos para quem não tem mais o que fazer.