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Vestida para matar

O consultor Vitor Brasil discute a popularidade crescente da moda e cultura brasileiras e como uma tradução eficiente pode ajudar os estilistas locais a atingir novos mercados.

Inventando moda

O jornalista Ronald Villardo oferece uma visão singular sobre como não enlouquecer ao traduzir aqueles termos tão peculiares da indústria de moda.

Papo de mulher
Chiara Manfrinato

Afinal, o que a Bridget Jones e o Yves Saint Laurent têm mesmo em comum?

 

Costumamos dividir os tradutores em três categorias principais: técnicos, redatores e tradutores literários.

Dos tradutores técnicos, espera-se que tenham um conhecimento profundo da terminologia e dos processos puramente técnicos. Dos redatores, que eles sejam capazes de adaptar uma mensagem publicitária de uma língua e cultura para outra. Já dos tradutores literários espera-se que reescrevam trabalhos criativos em uma língua diferente, com uma riqueza de detalhes e nuances, mas permanecendo fiéis às escolhas originais do autor.

Daqueles que traduzem para a indústria de moda, espera-se que sejam como Cérbero, a criatura de três cabeças da mitologia grega. Eles precisam estar familiarizados com os processos e a terminologia do setor, o que representando o aspecto técnico; precisam ser capazes de adaptar uma mensagem essencialmente publicitária que procura atrair as pessoas e vender seus produtos; e precisam também ser capazes de usar suas habilidades literárias para entender e recriar um ambiente, reproduzindo com eficácia o estilo e o registro do idioma original. O último aspecto mencionado, que é freqüentemente negligenciado por aqueles que trabalham com moda, é o mais importante na minha opinião. E por esse motivo, ele será o foco do meu artigo.

Pense em um gênero relativamente novo que tenha tido um extremo sucesso no mundo todo recentemente, uma literatura para mulheres, também conhecido como “literatura de mulherzinha” (http://en.wikipedia.org/wiki/Chick_lit). O gênero e a indústria da moda têm uma estratégia de comunicação comum, tornando-os bastante semelhantes.

Se você gostou de O Diário de Bridget Jones, de Helen Fielding, que tal experimentar outras autoras do gênero? Você pode
encontrá-las em www.chicklit.co.uk


De fato, esse gênero literário e a moda vendem sonhos. Quando estamos diante de um mundo perfeito, repleto de pessoas bonitas e roupas maravilhosas, clientes e leitores gostam de pensar que também podem vir a fazer parte deste universo. Eles não deveriam percebê-lo como um mundo elitista, mas sim como um espaço aberto e acessível. É uma estratégia de comunicação baseada em identificação, o que significa que pessoas comuns admiram o que vêem e quem elas vêem (ou lêem!), imaginando que também possam ser assim. Em outras palavras, glamour ao alcance de todos.

Num certo sentido, a indústria de moda foi obrigada a revisar sua estratégia de comunicação para falar com seu público. Afinal de contas, sua mensagem ficou restrita a imagens por muito tempo. Mais recentemente, no entanto, o setor tem feito um uso cada vez maior da palavra, que ganhou importância com o redescobrimento da literatura de moda.

Sex and the City, um seriado de sucesso no canal HBO, foi baseado no livro de Candice Bushnell de mesmo nome e é talvez a melhor combinação de moda e “chick lit”.


A moda possui um léxico próprio. Obviamente, são palavras da indústria têxtil mas que também fazem parte do vocabulário de marketing e, acima de tudo, do gênero “capa cor de rosa”. Qualquer um pode criar um glossário de moda diversificado e útil lendo os contos de Sophie Kinsella, por exemplo, e extrair algo além da terminologia, o tratado do sistema fashion propriamente dito.

Autoras desse gênero literário e editores de moda usam a mesma linguagem (e clichês), que é baseada na linguagem popular. Seu vocabulário está repleto de gírias e expressões de uso comum que muitas vezes sequer ainda entraram para os dicionários oficiais, mesmo aqueles mais atualizados. Mas por trás do léxico, o elemento básico compartilhado pelas linguagens chick lit e fashion é o estilo, que deve ser charmoso, agradável, bem-humorado, divertido, frívolo e frugal. Trata-se de uma linguagem que os leigos entendem e podem usar no seu dia-a-dia.


Os tradutores de moda precisam ter plena consciência dessas complexidades. Eles precisam estar antenados com os gêneros característicos dos estilistas e suas coleções. Precisam saber o que representa a chancela de alguns indivíduos para as grandes grifes nas culturas de origem e de destino (assim como as fofocas que os circundam). Devem ser curiosos, atentos e saber captar tendências. Os tradutores de moda precisam, acima de tudo, conhecer e entender a cultura pop e levá-la em consideração ao exercer seu ofício. É por isso que quem traduz para a indústria da moda deve ter a capacidade de traduzir sonhos.

 
Chiara Manfrinato, falante nativa do italiano, trabalha como tradutora autônoma. Trabalhando com agências de tradução, já participou de projetos para os principais estilistas italianos. Chiara é fanática por moda e pela chamada “literatura de mulherzinha”.