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Do Nordeste brasileiro para o mundo

Em entrevista com Eduardo Peixoto, Executivo de Desenvolvimento de Negócios do C.E.S.A.R, confirmamos que inovação tecnológica está em todo lugar e é para todos.

Um gigante emergente na arena global de localização

Adam Blau, VP de Vendas, e Cassius Figueiredo, Gerente de Projetos Globais, explicam porque a milengo escolheu o Rio de Janeiro para ser seu Centro de GPM.

O Brasil visto de dentro
Fabiano Cid

A visão político-econômica de um especialista em localização sobre o seu próprio país

 

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) adotou recentemente uma nova metodologia para calcular o PIB do país, revelando que a economia brasileira é US$ 102 bilhões maior do que se imaginava. Segundo a empresa de consultoria Austin Rating, o aumento de 11% a que se chegou com o novo cálculo posiciona o Brasil entre as 10 maiores economias do mundo, à frente da Índia, da Austrália, da Holanda e da Coréia do Sul. Só em 2005, o PIB do Brasil atingiu US$ 882 bilhões. Significa isso que o Brasil conseguirá alcançar uma posição de destaque entre os principais exportadores mundiais de produtos e serviços de TI? De que forma as empresas e os profissionais do setor lingüístico podem se beneficiar dessa tendência? O que podemos fazer para ajudar a realizar o tão esperado sonho brasileiro de se tornar “o país do futuro”? Essas são algumas questões que vou abordar neste artigo.

Em março último, duas importantes conferências sobre o tema acima aconteceram em São Paulo e no Rio de Janeiro. Enquanto o Brasil Outsourcing foi uma iniciativa lançada por Flavio Grynszpan, coordenador da seção brasileira da IAOP (International Association of Outsourcing Professionals), a Rio International Software and Services Outsourcing Conference foi uma conferência internacional de software e outsourcing organizada pela BRASSCOM, Associação Brasileira das Empresas de Software e Serviços para Exportação. Nos dois eventos, a lista de palestrantes contou com executivos, representantes do governo e acadêmicos do Brasil e do exterior, que discutiram os caminhos e meios de colocar o Brasil em uma posição mais central no que tange ao outsourcing em TI.

Em 2006, as transações do mercado de software no Brasil totalizaram US$ 9,09 bilhões em sistemas de TI e serviços relacionados, representando um aumento de 22,6% em relação ao ano anterior. Do valor total, US$ 3,26 bilhões referem-se a venda de software, o que representa 1,3% das transações em todo o mundo e 43% das transações realizadas na América Latina. No entanto, o NRI (Network Readiness Index) preparado pelo Fórum Econômico Mundial classifica o Brasil na 53ª posição. O relatório, publicado em março de 2007, analisa o impacto das tecnologias de informação e comunicação na competitividade corporativa e no processo de desenvolvimento econômico e social em 122 países. Embora o número de usuários de Internet por 100 habitantes seja maior no Brasil do que em outros países do BRIC, a Índia ocupou o 40º lugar na lista, e países menores da América Latina, como o Chile e o México, também tiveram avaliações melhores, ficando respectivamente com a 31ª e a 49ª posições.


Networked Readiness Index do Fórum Econômico Mundial – posições em 2006–2007


Uma alternativa de nearshoring

Tendo participado das duas conferências, fica claro para mim que o Brasil quer se posicionar como alternativa viável de offshoring a outras regiões, já bem estabelecidas na Ásia e na Europa. Segundo um documento publicado pela Research and Markets, “O nearshore outsourcing crescerá 16,7% em 2008. Isso é positivo para o Brasil e a Argentina, que apresentam uma das taxas de crescimento mais rápido em outsourcing estrangeiro na América Latina. Comparativamente, a população de agentes de offshore do Brasil crescerá 18% ao ano.” Acrescente-se a isso a instalação de captive centers tanto em grandes quanto em pequenas cidades brasileiras, como é o caso do centro da IBM, no Rio de Janeiro, e o da Dell, em Hortolândia. O Brasil tem o maior número de usuários potenciais de Internet banking, bem como 10% da base mundial instalada de caixas eletrônicos, e a BM&F (Bolsa de Mercadorias e Futuros) é a quinta maior do mundo. Talvez por causa disso, segundo o diretor de pesquisas da IDC, Mauro Peres, “o Brasil pode ser o mais recomendado fornecedor de serviços de TI offshore na área financeira”.

O país conta com alguns fatores exclusivos para aumentar sua capacidade de atrair empresas que querem terceirizar algumas de suas atividades, principalmente na área de TI. O fuso horário é, talvez, o que mais se destaca: você pode pegar um vôo noturno de Chicago, Vancouver, Nova York, Londres ou Paris e chegar ao Brasil para uma reunião sem passar por aquela desconfortável sensação de estar “fora de fuso”. As teleconferências podem ser realizadas no expediente normal, já que a diferença de horário entre a América do Sul e os EUA ou a Europa é pequena. O mesmo se aplica à solução de problemas, pois qualquer questão pode ser resolvida  no mesmo dia útil.

Outros fatores característicos são de natureza geopolítica. O país é imune a desastres naturais devido à sua localização, onde não existem terremotos, vulcões, tsunamis e similares. Apesar das extensas fronteiras, que se limitam com quase todos os países da América do Sul, a política externa brasileira de boa vizinhança data de séculos, e o vasto território não foi afetado por nenhum dos conflitos ou incidentes que caracterizaram o mundo depois (ou antes) do 11 de setembro. Entre outras vantagens menos exclusivas, embora cruciais, estão a proteção à propriedade intelectual — que pode ser um problema em alguns países asiáticos —, uma grande infra-estrutura de telecomunicações, o segundo maior número de aeroportos, a maior base de profissionais de TI da América Latina (892.000 pessoas) e uma mentalidade ocidental que facilita as negociações e transações comerciais. (Para ver outros aspectos da mentalidade oriental versus mentalidade ocidental, consulte artigo de minha autoria, publicado na MultiLingual Computing and Technology No. 72 de junho de 2005, que também pode ser encontrado em http://www.ccaps.net/newsletter/10-05/art_2pt.htm)

Por anos, os desenvolvedores brasileiros de software quase não consideravam a exportação de seus produtos e serviços de TI. Juntamente com outros aspectos, como a falta de apoio governamental e a instabilidade político-econômica de anos anteriores, o mercado interno sempre foi um fator que desencorajou aqueles que se aventuraram na assim chamada “nova economia”.

Por que alguém se daria ao trabalho de ir ao exterior quando seu produto poderia ser vendido internamente para a quinta maior população do mundo e para um mercado doméstico gigantesco, ávido por produtos e serviços? Por outro lado, algumas dessas empresas perceberam que a globalização as forçaria a deixar sua zona de conforto e que, se quisessem representar um papel significativo na economia atual, deveriam encontrar seu espaço fora do abrigo das fronteiras do seu país.

O governo brasileiro criou vários programas de incentivo para empresas de todos os tamanhos que quisessem exportar. O assunto internacionalização está no topo da agenda dos CEOs das maiores corporações, e os casos de sucesso começam a aparecer na forma de aeronaves (Embraer), cosméticos (Natura), jóias (H. Stern) e calçados (Havaianas). A demanda por commodities brasileiras (soja, petróleo, aço e etanol, para citar algumas) cresceu exponencialmente devido a inúmeros fatores que abrangem desde o aquecimento global até a instabilidade no Oriente Médio. Mesmo assim, o setor de TI ainda não conseguiu alcançar uma posição respeitável na arena internacional. Apesar de sua excelência em alguns nichos de mercado, como exploração em águas profundas, pesquisa e desenvolvimento (P&D), sistemas bancários e de votação eletrônica, o país poderia levar anos até chegar ao ponto de alcançar outros gigantes como a Índia ou a China. A supervalorização da moeda local, os altos custos trabalhistas, a tributação pesada e a barreira do idioma, tudo isso se soma à dificuldade de comercializar o setor brasileiro de TI lá fora. Mas as coisas estão começando a mudar.

   

Software na agenda de exportação
A iniciativa de exportação das empresas brasileiras de TI está ganhando força na medida em que elas se posicionam como alternativa a outros concorrentes bem estabelecidos, principalmente as corporações indianas. As vantagens oferecidas são inúmeras e muito específicas ao país. Elas incluem diversidade cultural, características pessoais e custos de recursos humanos, entre outras.

A História transformou o Brasil em uma mistura de culturas, hábitos e povos. Começou quando os portugueses se misturaram à população indígena e aos escravos nos primórdios da construção do país. Ao longo dos séculos, a imigração aumentou e foi encorajada pelas autoridades. Nas primeiras décadas do século XX, as colônias de imigrantes da Europa, do Oriente Médio e do Leste Asiático (principalmente japoneses) cresceram exponencialmente. A miscigenação racial e o mix cultural, combinados a uma atitude acolhedora por parte da população local, estimularam uma diversidade cultural e uma tolerância raramente vista em outras regiões que vivenciaram esse afluxo de imigrantes. Essa situação ajudou a formar o caráter flexível dos profissionais brasileiros que também tendem a se mostrar mais dispostos ao trabalho em equipe – talvez inclusive por esse traço histórico.

Jacques Depocas, diretor do Centro de Tecnologia Global (GLT) do HSBC, é um franco-canadense que mora em Curitiba, uma cidade na região sul do Brasil. Ele diz que os brasileiros são vistos, por ele e por toda a corporação, como talentosos, curiosos, proativos, voltados para soluções e adaptáveis às mudanças. Essas características também são endossadas por Marcelo Amarumma, diretor de Global Delivery da IBM América Latina. Segundo Amarumma, a capacidade de inter-relacionamento dos profissionais brasileiros desencadeou uma tendência sem precedentes, na qual os gerentes de projetos da IBM, devido a essas qualidades, estão sendo “exportados” para a matriz nos EUA.

O Brasil é considerado uma região de baixo custo — às vezes mais baixo até do que a Índia —, mas a percepção geral é de que os brasileiros não são tão qualificados. De fato, se comparados com a Índia, os custos de recursos humanos nos níveis mais altos da hierarquia corporativa são mais baixos no Brasil. Somente quando se desce no organograma, em direção ao trabalho menos qualificado, é que a Índia oferece mão-de-obra mais barata.

   

Mudar essa percepção pode exigir muito mais esforço e tempo do que é atualmente dedicado ao assunto, embora as empresas tenham percebido que, se elas se expandirem internacionalmente e atraírem empresas e investimentos estrangeiros, o trabalho duro virá junto. Paulo Merson, do Software Engineering Institute da Carnegie Mellon University, acredita que investir contínua e intensamente, quebrar a barreira do idioma e publicar estudos de casos e documentos em publicações internacionais seletas são algumas das soluções possíveis.

Alguns dizem que o setor privado deve agir com, sem e apesar do governo. Entretanto, o governo também está fazendo a sua parte. Segundo Luiz Fernando Furlan, Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, um programa de redução de impostos para fabricantes de PCs, a ser implementado em breve, triplicará a capacidade da produção. Os maiores desafios enfrentados pelo setor de TI (altos impostos, profissionais despreparados e leis trabalhistas que não são atualizadas há mais de 50 anos) também estão sendo abordados e são as principais prioridades do atual governo.

Quer uma ajuda?
A localização profissional ainda não aparece na lista das prioridades mais altas da maioria das empresas de TI do Brasil quando tentam implementar suas estratégias de exportação. Quando levada em conta no início do processo, a localização interna é percebida como mais econômica. O pensamento e as atitudes gerais são de que, se existem engenheiros que podem falar e escrever em inglês ou espanhol no escritório, por que se preocupar em contratar um fornecedor de localização externo para fazer o trabalho? Geralmente, o resultado é insatisfatório, uma vez que— e todos sabemos disso — engenheiros não são lingüistas. Na verdade, a grande maioria não é nem nativa do idioma de destino, e os resultados vão desde esforços de localização razoavelmente bem-sucedidos até desastres completos. Mas quando há tanto investimento de capital e esforço humano envolvidos, brincar de roleta russa nunca deveria ser uma opção. Há outros casos muito comuns, nos quais, por mera ignorância, os conceitos de internacionalização e conseqüente localização não são sequer considerados durante o processo. Essas preocupações só aparecem quando existe uma oportunidade de venda em um mercado estrangeiro, mas as conseqüências podem ser catastróficas. Simplesmente porque não haverá mais tempo para corrigir os problemas, ou porque o dinheiro investido para reparar o que deveria ter sido considerado antes não compensará os lucros gerados ao vender o software.

Agora, cabe às empresas e aos profissionais de localização ajudar esses clientes a atingir suas metas de internacionalização da melhor maneira possível. O mercado brasileiro tem sido freqüentemente desconsiderado pelos fornecedores de serviços lingüísticos (tanto no país quanto fora dele) porque outras empresas no exterior são, geralmente, mais qualificadas e mais fáceis de convencer sobre os benefícios de uma boa estratégia de localização. Essas empresas internacionais também sabem o valor de conseguir um retorno maior sobre o investimento em seus esforços de localização, um fato que tem lhes permitido obter vantagem sobre a concorrência. Além disso, só recentemente as empresas brasileiras começaram a encarar seriamente os mercados externos como alternativa viável para seus esforços de vendas. Elas perceberam que, por melhor que seja o mercado doméstico, em tempos de globalização é preciso ultrapassar as fronteiras de seu país e aventurar-se em terras estrangeiras.

Na Ccaps, temos auxiliado várias empresas brasileiras de TI a alcançar suas metas de internacionalização. Isso nos permitiu compartilhar as histórias de sucesso com nossos parceiros e clientes em potencial, o que aumentou nossa chance de obter oportunidades de negócios cada vez mais qualificadas. No entanto, muitas outras oportunidades ainda estão por vir e, enquanto não houver no setor uma associação local forte o bastante para apoiar esse empreendimento, teremos de fazer o possível para ajudar o Brasil a realizar seu desejo de ser um verdadeiro país do futuro.

Lembrando da conferência, eu percebo agora que, quando Jair Avritchir, da Dell nos Estados Unidos, disse que uma das barreiras para o desenvolvimento de software no Brasil era o fato de existirem poucos parceiros locais com tamanho razoável e presença internacional, eu devia ter levantado a mão e perguntado: “Quer alguma ajuda?”

 
Reimpresso da revista MultiLingual (2007, #89 Volume 18 Edição 5)
com permissão da Multilingual Computing, Inc., www.multilingual.com.
 

Fabiano Cid é diretor executivo da Ccaps e está no ramo de localização há mais de 10 anos.

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