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Torre de Babel

Bia Peine e Daltony Nóbrega, casados com a profissão e na vida real, recriam a gênese dos serviços de tradução em um artigo divertido e relaxante.

Preparando um projeto para tradução

A gerente de operações Kim Vitray ensina as melhores práticas para quem está pensando em terceirizar suas traduções ou já compra serviços de tradução.

Padrões de tradução – quem precisa deles?
Andrew Fenner

Como os padrões europeus podem ajudar o mundo da tradução

 

Houve um tempo em que as traduções eram, em grande parte, feitas por indivíduos, para indivíduos. Aí chegou a globalização, com as empresas buscando mercados em todo o mundo e abrangendo públicos cada vez mais heterogêneos em cada país: globalização externa e interna, por assim dizer. Com isso, a demanda por tradução cresceu muito além do que qualquer indivíduo podia oferecer; para evitar constrangimentos, ou coisa pior, os clientes de tradução precisavam ter certeza de que sua mensagem estava sendo transmitida corretamente em outros idiomas (até mesmo em variações de cada idioma). Já ultrapassamos o ponto em que é possível deixar que profissionais individuais garantam que as coisas estão sendo feitas corretamente. Estamos na era da tradução em massa.

Para os indivíduos e as organizações que operam nessa área, isso significa que é preciso traduzir certo, da primeira vez e em todas as vezes. Precisamos ter a certeza de que o trabalho que realizamos é o que nossos clientes querem e de que os clientes sabem o que têm de produzir para determinado setor ou país.

Várias organizações tentaram, e continuam tentando, definir padrões para a tradução: se não no que o próprio produto deve ser (talvez por ser praticamente impossível definir o que é uma “boa” tradução quando não há contexto), pelo menos nos procedimentos a serem seguidos ao produzi-la. Têm sido feitas tentativas, tanto em terminologias específicas (como o SAE J1930 da indústria automotiva) quanto entre idiomas (como o DIN 2345) e, atualmente, o padrão de tradução do Comitê Europeu de Normalização (CEN, Comité Européen de Normalisation), padrão esse que parece ter nascido das preocupações e dos esforços da União Européia de Associações de Empresas de Tradução (EUATC, European Union of Associations of Translation Companies), embora tenha sido expandido para incluir representantes da profissão com um todo.

O padrão CEN tenta definir o que é necessário para que a tradução ocorra, de que forma as várias partes envolvidas devem lidar umas com as outras e o que elas podem ou não esperar do resultado.

Um dos aspectos fundamentais que os padrões de tradução estabelecem é que a tradução realmente existe: ela não “acontece”, simplesmente; é algo que precisa ser feito, e alguém tem de fazê-lo. Isso pode soar estranho, até que você perceba quanta gente acha que é só uma questão de “digitar em francês”. Como em muitos setores de serviços, quanto melhor o trabalho, menor o esforço que parece ter exigido, mas muitos clientes, de fato e em potencial, têm muito pouca ou nenhuma noção do que envolve uma tradução e não fazem muita questão de saber.

Os padrões de tradução têm uma segunda implicação importante para os clientes: é que eles também têm obrigações. A obrigação de escolher o fornecedor certo para realizar o trabalho, por exemplo, e garantir que ele tem os recursos necessários para a tarefa, como a terminologia correta e as informações de referência. Deve ter havido uma época em que os tradutores eram algum tipo de “superespecialistas”, dos quais se esperava que entendessem de tudo e que simplesmente executassem seu trabalho enclausurados. Esse tempo já passou.

Qual o significado dos padrões para os fornecedores de serviços de tradução?
Quando se faz uma tradução, uma das exigências mais simples, porém a mais fundamental, é que ela deve ser verificada (revisada, editada ou qualquer termo que seja usado) por outra pessoa, não pela que fez a tradução original. Não importa se o primeiro tradutor é da própria empresa ou terceirizado. Não importa se o tradutor primeiro é da própria empresa ou um prestador de serviços autônomo.

Aqui há duas implicações fundamentais: uma é que a empresa de tradução (ou “fornecedor de serviços de tradução”, segundo o CEN) deve realmente verificar o resultado antes de enviá-lo ao cliente. Meramente retirá-lo do envelope do tradutor ou da pasta de arquivos e colocá-lo em outro envelope ou enviá-lo por email ao cliente não é o bastante. É desnecessário dizer o que isso implica para as empresas de tradução menos rigorosas; mas, por outro lado, essas são as pessoas que o padrão pretende eliminar.

Em segundo lugar, ele supõe que os fornecedores de serviços de tradução devem realmente ter em sua equipe lingüistas (ou ao menos pessoas que possam ler) que compreendam as questões envolvidas em uma tradução. Não é o que sempre acontece hoje em dia, como eu posso atestar pessoalmente.

O que os padrões de tradução significam para os tradutores? Ter seu trabalho verificado por outra pessoa libera-os de sua responsabilidade sobre a qualidade do trabalho que executam? De forma alguma. De minha parte, posso dizer com toda a segurança que saber que uma empresa para a qual eu esteja trabalhando vai verificar meu trabalho não reduz minha preocupação em fazer um trabalho de qualidade – muito pelo contrário. Se eu souber que a empresa não vai fazer nada para verificar meu trabalho e simplesmente vai colocá-lo em um envelope e acrescentar uma “saudável” margem de lucro, isso não me deixará, no mínimo, menos inclinado a me preocupar com o produto final? Também ajuda o fato de saber que o fornecedor para o qual estou trabalhando vai se comunicar com o cliente para obter material de referência e de apoio, se necessário. Cuidado gera cuidado.

O padrão CEN e outros padrões (como o ASTM/ATA) enfocam o trabalho conjunto; isso só pode ter um efeito benéfico no combate ao isolacionismo que tem se tornado endêmico entre os tradutores. Para citar Liz Robertson, do BSI CEN Mirror Group, “isso pode significar o fim do tradutor ‘pobre’ – em todos os sentidos da palavra”.

Outras implicações
À medida que os padrões forem adotados no setor de tradução, inevitavelmente surgirão efeitos indiretos (ou “diretos demais”) em outras áreas. Estabelecimentos educacionais que treinam tradutores terão de começar a treiná-los para trabalhar dentro dos padrões e, do mesmo modo, estabelecer seus próprios padrões. Se é que podemos tomar como base o Reino Unido, a qualidade dos cursos de tradução oferecidos, tanto de graduação quanto de pós-graduação, varia enormemente. Mas há um grande projeto em andamento na Europa, o Acordo de Bolonha, para estabelecer até 2010 o Espaço Europeu de Ensino Superior. Para se alcançar “o livre deslocamento de profissionais e serviços profissionais” (como no caso de médicos e advogados), isso exige que todos os cursos universitários estejam validados e aprovados (mutuamente e por autoridades governamentais) até 2010. Os cursos que não atenderem aos padrões serão privados de recursos financeiros. Dito de outra forma: “ou obedece ou desaparece”. Não é preciso ter muita imaginação para perceber que os efeitos dessa decisão podem ser devastadores.

Mas então, quem precisa de padrões de tradução? Todos nós precisamos — clientes, fornecedores de serviços de tradução e tradutores. A idéia da “aldeia global” circula desde os anos 60, mas agora é uma realidade reconhecida; até mesmo os protestos contra o mundo globalizado se transformaram em um fenômeno global. Não podemos mais nos permitir não entender o que nós — todos nós — estamos dizendo.

 
Este artigo foi publicado originalmente na Communicate, a newsletter da ATC, Association of Translation Companies (www.atc.org.uk).
 
 

Andrew Fenner trabalhou por alguns anos na Alemanha quando jovem, retornou à Inglaterra e co-gerenciou uma empresa de publicação. Depois, se voltou para a tradução e tem sido um tradutor autônomo desde 1984. Ele fez parte do Conselho do Institute of Translation and Interpreting (ITI) e ajudou a representá-lo em reuniões européias sobre padrões de tradução. Andrew também está usando suas habilidades lingüísticas para rastrear rotas de comércio e migratórias ancestrais (possivelmente pré-históricas).

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