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O uso da tradução para reduzir custos no setor de energia
O executivo Wagner Covos explica como seus clientes de petróleo se beneficiam dos elementos básicos da localização de software
Risos e pesadelos na tradução de termos de petróleo
A tradutora Márcia Buckley dá um enfoque divertido sobre os desafios enfrentados na tradução de óleo e gás

A capciosa terminologia da indústria petrolífera
Peter Warner

P: Quando é que uma árvore de natal não é uma árvore de natal?
R: Quando está molhada e presa a um poço de petróleo

 

O Brasil é um dos líderes mundiais no desenvolvimento de tecnologias de perfuração em águas profundas. Não se trata de ciência de foguetes, mas chega bem perto. Com freqüência, a tradução de documentos da indústria de petróleo pode ser bem maçante. Nós que trabalhamos bastante nesta área podemos atestar isso. Mas de vez em quando temos o privilégio de ter uma visão mais aprofundada da tecnologia brasileira de perfuração em águas profundas. Do nosso ponto de vista, é impressionante. Se você parar por alguns instantes e der asas à sua imaginação, poderá obter algumas imagens incríveis.

A tecnologia necessária para prender um duto de 3000 metros de uma plataforma de petróleo a um ponto fixo no fundo do oceano é de tirar o fôlego. Pense nisso por um minuto: cerca de 300 ou 400 quilômetros no meio do Oceano Atlântico, sujeito a todas as movimentações causadas pelo vento e pelas ondas, você prende um duto inflexível de uma plataforma flutuante a três quilômetros no fundo do oceano! Em seguida, depois que ele estiver preso ao chão, a perfuração tem início. A plataforma deve permanecer em uma posição constante com relação à perfuração no chão – com movimentação lateral (inclinação) ou deriva mínima, de modo a não colocar tensão indevida sobre o duto. Trata-se de uma força incrível sobre qualquer equipamento ou sistema de posicionamento, independentemente de sua sofisticação.


Assegurar uma tradução precisa de todas as especificações técnicas e requisitos físicos de engenharia para esse tipo de operação pode ser um exercício muito desafiador. A tecnologia e a nomenclatura freqüentemente são criadas por indivíduos que não são falantes nativos do inglês. Tome “risers” (degraus) como exemplo. Eu costumava sentar nesses degraus quando ia para disputas de atletismo em minha escola nos Estados Unidos. Eles às vezes também eram denominados “bleachers” (arquibancadas). Mas no setor de petróleo, este termo significa “Porção vertical de uma linha de escoamento para transporte do óleo/gás natural do poço até a plataforma”. Do mesmo modo, no uso normal do inglês, “extremities” (extremidades) são os pés e as mãos do corpo humano. Por exemplo, “his extremities were frozen” (as extremidades dele estavam congeladas). Já no jargão da exploração de petróleo, este termo corresponde à “extensão do oleoduto”. Ao lidar com contratos multimilionários em dólares, é importante entender corretamente esses e outros termos.

A versão do setor petrolífero para uma árvore de Natal

Uma das coisas que aprendemos é a extrema importância de se ter um bom glossário atualizado dos termos técnicos. Há glossários em inglês disponíveis na Internet, e a Petrobras apresentou um glossário bastante completo em português e inglês em seus últimos relatórios anuais, que pode ser encontrado em http://www2.petrobras.com.br/Petrobras/portugues/visao/vis_relatorio.htm. Lá você aprenderá que “farm in” não tem nada a ver com agricultura; trata-se da aquisição total ou parcial dos direitos de concessão. Da mesma forma que “farm out” não tem nada a ver com colheita.


Além disso, eu não recomendaria que você fosse a uma empresa de petróleo escolher sua árvore de natal para as festas de fim de ano... Você poderia sair de lá com um aparelho multivalvulado que os perfuradores usam no topo de um poço para controlar o fluxo de petróleo de dentro do poço. Caso você use esse dispositivo submerso, ele será denominado árvore de natal “molhada”.

Uma observação final: nem tudo é feito dentro de um escritório, de frente para o monitor. No ano passado, por exemplo, trabalhamos em um projeto para uma empresa internacional de exploração marítima de petróleo que realiza perfuração em águas profundas. Estou falando aqui de ficar no alto de um duto de 3000 metros preso ao fundo do oceano. Imagine fazer isso no Mar do Norte, no inverno, sob os uivos da brisa do Ártico! Com certeza, essa possibilidade torna o trabalho no Atlântico Sul uma alternativa muito atraente.


A empresa nos procurou depois de ver um de nossos anúncios em uma revista de negócios e pediu que vertêssemos as especificações em uma solicitação de proposta (RFP) para o inglês e traduzir as suas respostas de volta para o português. Quanto mais sofisticada a tecnologia, mais complexo o vocabulário. A procura da palavra ou expressão correta nos levou, via Internet, a plantas de engenharia de última geração. O problema mais recorrente, entretanto, é que as especificações usavam um termo originalmente criado em inglês e traduzido para o português por um engenheiro que provavelmente estava com pressa de traduzir. Esse processo demonstrou ser um desafio de verdade quando tivemos que verter novamente para o inglês.

Uma das coisas realmente interessantes com relação ao que fazemos como tradutores é que de vez em quando temos o privilégio de ir além dos press releases diários e ver a elegância da tecnologia e engenharia por trás disso tudo. Tivemos até a oportunidade de acompanhar um representante da empresa ao leilão em que as ofertas foram feitas. O processo não demorou, e o leilão foi obviamente realizado em português. Conseguimos participar de algum modo, embora não tenha sido nada muito técnico. Apenas a boa e velha interpretação ao pé do ouvido, sem deixar de ser interessante e desafiadora.

 
Peter Warner é um dos coordenadores do serviço de tradução de português para inglês da Ccaps, criado para clientes cujas atividades comerciais requerem o uso extensivo de relatórios, apresentações, sites e outros produtos baseados em textos em inglês para que possam ser competitivos no mercado global. Juntamente com Steve Yolen ele toca na banda Copacabana Handshake, de música folk norte-americana.