Risos e pesadelos na tradução de termos de petróleo
A tradutora Márcia Buckley dá um enfoque divertido sobre os desafios enfrentados na tradução de óleo e gás
A capciosa terminologia da indústria petrolífera
Como falante nativo, o tradutor Peter Warner discute as peculiaridades do léxico petrolífero

O uso da tradução para reduzir custos no setor de energia
Wagner Covos

Como ajudar seu cliente a economizar aplicando os princípios da localização na indústria petrolífera

 

Que tradução é um serviço importante e que gera benefícios econômicos diretos, todo mundo já sabe. Também não é novidade nenhuma para vocês que trabalham com localização de software que quanto mais adaptada essa tradução for às características e peculiaridades de uma determinada região geográfica, mais benefícios ela trará para quem a compra. Entretanto, acredito que nenhum outro mercado tenha uma relação mais direta em termos de redução de custo quanto o serviço de tradução (ou “localização”, se você preferir) de peças e equipamentos para as empresas de petróleo no Brasil.

Hoje atuo como Diretor da divisão de Energia na Eagle Global Logistics, empresa especializada na prestação de serviços logísticos porta a porta para o mercado de petróleo. Dentre as atividades deste mercado, que incluem desde a movimentação de pequenas peças até o transporte de plataformas de petróleo já montadas, oferecemos serviços de tradução e classificação aduaneira a alguns de nossos clientes. Essa atividade é crucial para a redução da carga tributária de nossos clientes porque, dependendo da utilização da peça que estiver sendo importada, ela estará isenta ou não do Imposto de Importação (II) e do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).

O REPETRO é uma instrução normativa brasileira que regulamenta o regime aduaneiro especial de exportação e importação de bens destinados às atividades de pesquisa e lavra das jazidas de petróleo e gás natural. Para que um bem importado seja caracterizado como “repetrável”, ele deve ser corretamente traduzido e classificado a fim de que, ao ser avaliado pelo fiscal aduaneiro, este possa isentá-lo dos impostos mencionados acima. Entretanto, o trabalho de tradução e classificação é muito mais complexo do que se possa imaginar.


Um perfurador para a indústria do petróleo, por exemplo, possui um inventário de cerca de 45 mil diferentes itens, que vão desde vasos sanitários até equipamentos de alta tecnologia. Esses perfuradores possuem um programa de manutenção constante, seja ela preventiva ou corretiva, e demandam um controle e movimentação de peças extremamente dinâmicos. Grande parte dessas peças deve ser importada e a entrada desses materiais, portanto, é uma atividade de alta rotatividade.

Para cada processo de importação é criada uma fatura e uma lista de embarque descrevendo a especificação dos itens que constam do processo. Esses itens são traduzidos e classificados por nossa empresa seguindo critérios criados pela Receita Federal. Este órgão demanda uma especificação extremamente detalhada da peça em questão; especificação esta que chega ao detalhe do tipo de matéria-prima do item. E é essa tradução personalizada que me levou, no primeiro parágrafo, a tomar emprestado o termo “localização” da área de novas tecnologias para aplicar às atividades da indústria do petróleo.

Vejamos um exemplo. Quando um “parafuso de nylok de ressalto para bloco de gaveta de corte” é importado por uma empresa localizada no Brasil, o item geralmente vem descrito na fatura como um mero “screw”. Por ser parte de um preventor de erupção (ou BOP, acrônimo de BlowOut Preventer), equipamento que se destina à atividade fim de exploração de jazidas de petróleo, ele deve ser devidamente especificado a fim de se encaixar nos rigorosos critérios de exame alfandegário. Deste modo, na tradução e classificação do item, quanto mais “localizado” ele for, mais o cliente se beneficiará da isenção dos impostos. Porque se, por outro lado, ele for traduzido simplesmente como “parafuso”, o fiscal não poderá avaliar se o item se destina à atividade fim ou se está diante de um parafuso para uma máquina de lavar. E, neste caso, não poderá oferecer a isenção de impostos da qual, de outro modo, o importador se beneficiaria.

Mas além da redução da carga tributária, essa economia também pode estar ligada aos custos de armazenagem alfandegária e otimização do fluxo de caixa. No momento em que um fiscal receber a tradução de uma fatura, quanto maior for o detalhamento de cada item constante no documento, menos dificuldade ele terá para entender o destino dos itens e mais rapidamente poderá liberar a carga. Esse processo, portanto, está diretamente associado aos custos de armazenagem alfandegária, pois caso o fiscal tenha dúvidas para compreender o item listado, ele poderá reter a carga e solicitar laudos técnicos que comprovem que o item se destina a um equipamento para as atividades de pesquisa, exploração ou produção de petróleo e gás. Assim como os custos associados à armazenagem alfandegária são proporcionais ao tamanho da peça retida, o prejuízo pelo não recebimento da peça também o é, em especial se a peça for de crucial importância para o funcionamento da plataforma. Entretanto, essa rapidez traz não somente redução dos custos diretos mas também benefícios indiretos, como a otimização do fluxo de caixa.

Um item que esteja entrando no país já terá sido faturado e, dependendo da negociação e do tempo de envio da carga, a quantia devida já poderá ter sido quitada. Neste caso, portanto, o dinheiro já saiu do caixa do importador mas ainda não foi revertido em uso da peça importada. Deste modo, se o tempo de trânsito do item entre o fornecedor e o importador for reduzido ao máximo, mais otimizado será o fluxo de caixa da empresa. É lógico que a escolha de um meio de transporte ágil, como modal aéreo em detrimento do modal marítimo, diminuem o tempo de trânsito. O que talvez não esteja tão claro para quem não trabalha diariamente com essa atividade é que a tradução e classificação corretas serão também cruciais para diminuir o período de entrega, pois quanto menos tempo o material ficar preso na alfândega, mais rápido ele chegará ao destino final.

Se o termo localização foi criado para melhor explicar o processo de tradução de software que se iniciou com as chamadas “novas tecnologias”, já está na hora de os profissionais do petróleo começarem a perceber a necessidade e importância dele para o setor. Pois se um fiscal alfandegário decidir, com toda razão, impedir a entrada daquele simples screw no país, ele poderá fazê-lo sem pestanejar. Considerando-se que essa peça é fundamental para o funcionamento da plataforma e que os custos de uma plataforma de petróleo parada podem chegar a centenas de milhares de dólares por dia, imagine o tamanho do prejuízo que uma má tradução e classificação podem render. Não só para o importador, que é atingido diretamente, mas também para a economia nacional, que poderia deixar de produzir milhares de barris de petróleo por dia por causa de um parafuso mal “localizado”.

 
Wagner Covos é Diretor de Projetos e Energia para a América Latina da Eagle Global Logistics. Formado em Engenharia Civil pela USJT, em São Paulo e trabalha no ramo de logística há mais de 10 anos. Wagner canta árias de ópera e, segundo a equipe da Ccaps, sua interpretação de Nessun Dorma, de Puccini, é espetacular.