Há
um conhecido provérbio italiano que afirma ser o tradutor
um traidor (traduttore, traditore), porque ele não
é capaz de ser fiel ao texto original. Para a maioria
das pessoas, uma boa tradução é aquela
que justamente não se parece com uma tradução.
Ou seja, o tradutor deve ser invisível e deve se limitar
à transmissão do significado do original, por
meio de um texto fluente.
São
essas as constatações que nos levam às
perguntas que dão origem a este artigo. Será
que somos todos traidores e para que nosso trabalho seja considerado
bom, temos de ser invisíveis? Por que as pessoas em
geral pensam assim e que conseqüências isso traz
para o nosso trabalho?
Comecemos
pela questão “tradutor, traidor”. Aqueles
indivíduos capazes de ler textos ou de ver filmes em
seus idiomas originais quase sempre acham a tradução
dos livros e as legendas de baixa qualidade. Quem de nós
nunca ouviu alguém dizendo no cinema “ih, mas
o personagem não falou só isso. O tradutor não
sabe nada.” A maioria das pessoas que faz esse tipo
de comentário desconhece as dificuldades inerentes
à tradução para cinema. Para legendar
um filme, além de entender os diálogos e de
ter conhecimentos profundos sobre a cultura do país
de origem da história, o tradutor deve se preocupar
com o tempo de duração da cena, pois uma legenda
não pode “vazar” para a cena seguinte,
o espectador tem de ser capaz de ler toda a legenda durante
a cena específica.
Claro
que, algumas vezes, os leigos têm razão. Afinal
há traduções de cinema que são
simplesmente fracas mesmo e poderiam gerar um divertido programa
de certo/errado... Mas, o tradutor de cinema, e também
quem trabalha com TV e vídeo – com algumas diferenças
–, é obrigado a reduzir bastante a fala dos personagens
na legendagem, limitando-se a transmitir o contexto do que
é dito. Por isso, a tradução de filmes
para qualquer meio é muito mais uma adaptação
do que a simples transcrição no idioma de destino.
Como
as pessoas tendem a considerar o trabalho de tradução
como essa mera troca de palavras de uma língua para
outra, é comum ouvirmos comentários que acabam
por desvalorizar nosso trabalho. Se fosse assim, traduzir
seria realmente uma tarefa fácil, já substituída
por programas de computador, e não um trabalho intelectual
às vezes extremamente desgastante. Quem de nós
não tem um parente ou amigo que de vez em quando aparece
com o manual de algum equipamento eletrônico e pede
para “você traduzir rapidinho”? Eu já
encontrei uma forma de cortar esse tipo de situação:
pego o manual, faço uma contagem rápida das
páginas e informo o valor a ser pago pela minha “tradução
rapidinha”. Na maioria das vezes, isso é o que
basta para fazer com que o folgado desista...
A
principal conseqüência dessa visão, chamada
universalista, para a atividade tradutória é
essa idéia de que se trata de uma tarefa fácil.
A partir dessa perspectiva, traduzir seria fácil porque
não passaria de uma atividade automática e mecânica,
plena e fiel ao original (a simples troca de invólucros).
Outro efeito nefasto da propagação dessa idéia
ao longo do tempo é a inadequação da
remuneração oferecida pelo trabalho de tradução.
Como ele é percebido como tarefa fácil, com
freqüência estima-se um pagamento baixo pelo trabalho
a ser executado. É comum que as empresas e pessoas
se surpreendam com os preços cobrados, não estando
preparadas para desembolsar os valores que seriam adequados
por um projeto.
Invisibilidade
impossível -
Outro ponto central deste artigo é a idéia da
“invisibilidade” do tradutor, que se reflete nas
instruções muitas vezes enviadas ao tradutor,
como “reproduzir totalmente a idéia do texto
original, seguir à risca o estilo do original e garantir
que a tradução tenha a mesma fluência
e naturalidade do texto original”. Para os críticos,
em geral, uma boa tradução é aquela que
justamente não se parece com uma tradução
e na qual o tradutor consegue transmitir todo o significado
do texto original. Dessa forma, nega-se completamente a intervenção
fundamental do tradutor no texto.
Na
verdade, nosso trabalho não é simplesmente trocar
palavras, ele é muito mais complexo porque exige a
troca de sentidos. Se fosse simples, os programas de tradução
automática já bastariam para a realização
dessa tarefa. No entanto, como é necessário
trocar o sentido, até para garantir a tão desejada
fluência na língua de chegada, nada substitui
o pensamento humano e a capacidade de abstração
do ser humano. Nossa tarefa é transmitir o sentido
do texto, pois nem sempre conseguiremos encontrar equivalentes
exatos. Por exemplo, em polonês, a palavra mesa não
tem uma contraparte, mas duas: stól (que é a
mesa de jantar) e stolik (que são as mesas de café
ou telefone). Nesse caso, assim como em muitos outros, nos
quais não é possível substituir uma palavra
por outra, teríamos que adaptar o texto. Traduzir é
um processo mental de troca de sentido extremamente complexo,
nos quais fazemos escolhas com base no momento em que vivemos,
no país em que moramos e, mesmo, na nossa história
e experiência de vida, o tempo todo.
Além
da diferença da língua, há uma série
de diferenças que o tradutor deve considerar em seu
trabalho. Há algumas diferenças nas quais ele
está mergulhado, como seu contexto social e histórico.
Por exemplo, recentemente a TV por assinatura exibiu uma mini-série
sobre o movimento rap norte-americano. Imagino o quanto essa
legendagem tenha sido difícil, uma vez que nosso contexto
social e histórico é diferente. É claro
que o português falado no Brasil apresenta variações
devido ao contexto social dos falantes, por exemplo, mas diferentemente
do que acontece com o rap nos EUA, essas variações
não ocorrem de forma intencional. Nos EUA, a linguagem
do rap é usada com freqüência como forma
de protesto. Se o tradutor optar por utilizar uma linguagem
mais informal e com mais gírias, isso não refletirá
necessariamente todo o contexto social do rap. O contexto
histórico também influencia a criação
do texto traduzido. Se alguém fosse produzir uma tradução
de Shakespeare ou Cervantes hoje, com certeza seu texto seria
diferente de um texto traduzido há muitas décadas.
Também,
se aceitássemos a idéia de que a tradução
é uma simples troca de significados, estaríamos
considerando que o tradutor é capaz de ler a mente
do autor e passar para outra língua o que ele quis
dizer. Ora, o leitor também não é capaz
de assimilar exatamente tudo o que um autor quer dizer; toda
leitura que fazemos é igualmente influenciada pela
nossa formação, pelo meio em que vivemos e pelo
momento.
Por
causa desses fatores, é difícil considerar o
tradutor como um ser invisível. Por melhor e mais fluente
que seja seu texto, ele sempre sofrerá a influência
do meio e do momento em que vive. Nenhum tradutor trabalha
simplesmente trocando palavras. O nosso trabalho é
adaptar e transferir o significado dessas palavras para a
realidade local. Não é por acaso que a tradução
de softwares é chamada “localização”,
ou seja, a adaptação aos padrões locais.
Traidor
contextualizado -
Felizmente, essa visão está sendo substituída,
aos poucos, por uma visão relativista, na qual o pensamento
é construído lingüisticamente. Nessa visão,
as línguas representam os conceitos e não os
objetos. Esses conceitos se formam na mente dos falantes,
independentemente dos objetos que representam.
Antes,
os estudiosos se perguntavam se era possível transferir
o significado de uma língua para outra. Os estudiosos
contemporâneos passaram a questionar até que
ponto é possível transferir esse significado
ou até que ponto as línguas são formadas
pela “natureza humana” e até que ponto
elas são moldadas pela cultura.
Partindo desses princípios e considerando a influência
do meio sobre o tradutor, ele não mais é considerado
um “traidor”. Sabe-se hoje que somos influenciados
pelo momento histórico, pela cultura e pela sociedade
na qual vivemos.
Também
se sabe atualmente que antes de traduzir um texto, é
necessário contextualizá-lo, identificando onde,
em que época e em que circunstâncias ele foi
escrito. Rosemary Arrojo, em seu livro Oficina de tradução,
descreve esse processo:
O
texto, como o signo, deixa de ser a representação
“fiel” de um objeto estável que possa existir
fora do labirinto infinito da linguagem e passa a ser uma
máquina de significados em potencial. A imagem exemplar
do texto “original” deixa de ser, portanto, a
de uma seqüência de vagões que contêm
uma carga determinável e totalmente resgatável.
Ao invés de considerarmos o texto, ou o signo, como
um receptáculo em que algum “conteúdo”
possa ser depositado e mantido sob controle, proponho que
sua imagem exemplar passe a ser a de um palimpsesto, do grego
palímpsestos (“raspado novamente”), refere-se
ao “antigo material de escrita, principalmente o pergaminho,
usado, em razão de sua escassez ou alto preço,
duas ou três vezes [...] mediante raspagem do texto
anterior”.
Metaforicamente, em nossa “oficina”, o “palimpsesto”
passa a ser o texto que se apaga, em cada comunidade cultural
e em cada época, para dar lugar a outra escritura (ou
interpretação, ou leitura, ou tradução)
do “mesmo” texto.
Considerando-se
essa visão, os tradutores não mais são
vistos como traidores, mas como os responsáveis pela
adaptação do texto original, ao contexto social
e histórico atual.
O
trabalho de tradução vem recebendo o reconhecimento
que merece à medida que as pessoas e empresas necessitam
de melhor qualidade de resultados e tomam conhecimento das
dificuldades relativas ao processo. Cada modalidade de tradução
(literária, jurídica, informática, cinema,
TV e vídeo e as demais) tem suas particularidades,
como o uso de ferramentas especiais, a limitação
imposta pelo espaço ou pelo tempo, redação
do original por falantes não nativos do idioma original
e tantas outras.
Estes
aspectos, associados às crescentes necessidades causadas
pela globalização, vêm tornando evidentes
as questões abordadas acima e evidenciam o processo
de tradução como extremamente complexo e especializado.
Por
isso, quando aquele cunhado chato aparecer com o manualzinho
do aparelho eletrônico, argumente com ele essas questões
filosóficas. E no final, apresente o orçamento
da sua tradução. Garanto que ele vai desistir
rapidinho...
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