|
Agências
são de Marte, Tradutores são de Vênus
Fabiano
Cid
O
subtítulo do livro que inspirou a frase acima poderia nomear
o manual de sobrevivência de qualquer gerente de projeto que
conheço: "Um guia prático para melhorar a comunicação
e conseguir o que você quer nos seus relacionamentos".
Mas o que querem as agências de tradução, e
quanto os tradutores estão dispostos a oferecer? Até
que ponto os tradutores precisam se esforçar para agradar
as agências sem saírem melindrados? É claro
que não tenho as respostas, mas após ter passado outros
quatro anos do lado de cá do processo, acho que começo
a compreender um pouco melhor esse microcosmo. E embora habite hoje
o Planeta Vermelho, este artigo é mais direcionado aos venusianos,
que para sempre serão meus patrícios.
Nestes
tempos em que o ofício tem sido bastante (e novamente) discutido,
não restam mais dúvidas que "de tradutor e louco,
todo mundo tem um pouco". Bastam algunas nociones d'español,
um cursinho de inglês em Boston, apprendere carcamano com
gli novelle de Globo... Et voilà: mais um metendo a língua
onde não devia. A um sem número destes acima, juntam-se
os profissionais cansados, já sem força, dinheiro
ou paciência para se atualizar; localizadores que se julgam
infalíveis por saberem de cor os manuais de estilo da Microsoft
(dos tempos do Windows 95); revisores que não deixam passar
uma vírgula sequer antes de etc. mas que entregam um texto
impecavelmente incompreensível; e tradutores que vêem
o original como Carta Magna e não ousam duvidar de redatores
incompetentes. E, por último, mas não menos importantes
ou numerosos, o tradutour (indivíduo que está na profissão
a passeio) e a tradutoura (donzela sempre quase pronta para exercer
o ofício por completo).
Mas
como você pode se destacar dos demais quando não há
ainda mecanismos de qualificação abrangentes, certificações
amplamente reconhecidas pelo mercado, ou critérios de avaliação
padronizados e aceitos?1 Como convencer seu cliente em
potencial (ou gerente de projeto, neste caso) que você deve
ser separado do joio; cada dia mais disfarçado de trigo? Deve
existir uma maneira de provar que você não é mais
um número no banco de dados de fornecedores...
Comunicar.
Do latim comunicare, o ato de fazer saber; participar; estabelecer
ligação; unir. Talvez esteja aí a chave para
essa potencial crise no relacionamento entre tradutor e agência.
Qual foi a última vez que você disse clara e sinceramente
ao seu gerente de projeto que, infelizmente, o trabalho realizado
durante o fim de semana, precisa de uma revisão mais caprichada
pela equipe interna de revisores? Para quantos clientes você
ofereceu seu nome de usuário do Messenger ou ICQ, ou outra
forma de ser encontrado imediatamente quando estiver on-line (com
a linha ocupada porque a Telemar ainda não instalou o segundo
o telefone)? Fax, e-mail, bip, celular: são tantos os meios
que podemos utilizar hoje para realizar uma comunicação
clara entre agência e tradutor que não faz sentido
um pensar que o outro tinha falado uma coisa quando ouviu não
sei o quê de um terceiro, que não estava dizendo lé
com cré. Se não falarmos a mesma língua, como
poderemos traduzi-la para outro idioma?
Comunicando-se claramente, você poderá fazer saber
a qualquer agência de tradução para a qual trabalhe
ou venha a trabalhar que, como convidado para sentar à mesa
e repartir o pão, você se esforçará para
não cair em tentação e cometer um dos sete
pecados capitais do tradutor. Existem várias listas do que
não se deve fazer em um relacionamento profissional, mas
segue abaixo uma tentativa de estabelecer algumas dessas falhas.
ORGULHO
O primeiro pecado o impede de aceitar humildemente críticas
ou comentários sobre o trabalho entregue. O orgulhoso não
consegue aprender com seus próprios erros; ele se enclausurou
em uma torre de marfim e acredita que está acima de qualquer
técnico ou principiante que ouse lhe enviar um texto corrigido.
Tende a repetir os mesmos erros até ficar isolado, sem entender
como outros conseguem viver sem a glória de seus textos.
Quando um feedback é bem recebido e você demonstra
ter compreendido, passando a tomar cuidado para o erro não
se repetir, a voz do outro lado encontra eco e a comunicação
se estabelece.
GULA
O guloso nunca está satisfeito com a quantidade de trabalho
que se abarrota em sua caixa postal. Ele é incapaz de dizer
não a todas as propostas que lhe são oferecidas, apesar
de o cliente deixar bem claro que o trabalho é importante,
sendo necessárias tranqüilidade e atenção
para realizá-lo. Se a pressa não fosse inimiga da
perfeição, neste caso a gula o seria. Embora disponibilidade
seja um elemento crucial para um bom relacionamento entre fornecedor
e agência, a sinceridade também é fundamental.
E ninguém se sentirá ofendido se você se recusar
a entregar aquele trabalho costumeiramente impecável se estiver
atolado com outras tarefas ou se tiver decidido descansar por uma
semana. Aqui a comunicação é bem simples: "Desculpe,
mas não posso."
LUXÚRIA
Ah, a luxúria... O prazer libidinoso de se lambuzar com vários
clientes, de se permitir os prazeres carnais de aduladores mil,
ouvir voluptuosos elogios daquele que se apresentar mais conquistador,
se envolver na voluptuosidade de ofertas tentadoras ao pé
do ouvido e largar o corpo cansado na libertinagem de e-mails lascivos.
Um milésimo de real a mais aqui, um texto com palavras mais
aprazíveis ali, e lá se vai pelo ralo abaixo a aliança
de um casamento desfeito. Um relacionamento que se construiu com
o tempo, uma parceria em que confiança e estímulo
eram os pilares principais se dissolve sem um adeus, um pedido de
licença ou até mesmo um agradecimento pelos anos passados
juntos. Quando se cansar dos atrativos primeiros ou perceber que
a sacanagem era de outra ordem, talvez queira voltar ao parceiro
de longa data. Para todos há uma segunda chance, mas suas
chances de ser bem acolhido na volta aumentam quando você
deixa claro o motivo da partida e, se possível, uma previsão
para a data de retorno. Talvez seja mesmo o caso de sentar e discutir
a relação; quem sabe o outro não está
disposto a fazer concessões por amor ao seu trabalho?
AVAREZA
Teimosia em se adaptar às circunstâncias. A incapacidade
de aceitar um pouco menos hoje para ganhar mais amanhã. As
poucas palavras. Comunicação zero.
PREGUIÇA
A preguiça é o pecado capital que mais exaspera qualquer
gerente tenso por cumprir um prazo ou desesperado com os trabalhos
que, sem pedir licença, adentram sua caixa postal invariavelmente
na sexta-feira às quatro da tarde. O preguiçoso não
tem a menor idéia do que seja trabalhar no fim de semana,
jamais perdeu um feriado (prolongado, enforcado ou inventado), cobra
urgência urgentíssima emergencial e desesperadora se
a entrega do trabalho estiver marcada para a manhã seguinte,
e acha que deadline já está morto mesmo e não
vale à pena ressuscitar. É claro que todos precisamos
de folga e que boa vontade não deve se traduzir em abuso,
mas fique certo de que um esforço extra numa noite pode se
transformar em poder de barganha no futuro. Informe seus horários
de trabalho antecipadamente, programe junto com seu gerente as férias
merecidas, mas nunca o deixe na mão quando tiver se comprometido.
E, acima de tudo, ao aceitar um pepino, fique à vontade para
depois solicitar que descasquem seu abacaxi.
INVEJA
Ela pode até ser a arma dos incompetentes, mas quem nunca
sentiu inveja que atire a primeira pedra. O problema é quando
ela se torna um monstro de proporções incontroláveis
e passa a atrapalhar seu trabalho, pois tudo com o que você
consegue se preocupar não diz respeito a você, mas
ao outro. A quantidade de palavras que o gerente presenteou o outro
tradutor é sempre maior que aquelas que restaram para o invejoso.
Seus prazos são invariavelmente mais rígidos e apertados
do que dos demais fornecedores. E as tarifas pagas ao resto do mundo
são obviamente maiores que as recebidas por aquele cujo olho
é mais gordo que sua capacidade de perceber os motivos de
tais discrepâncias. Anos de experiência, qualidade do
trabalho entregue, condições de pagamento e tributação;
muitos são os fatores que afetam as diferenças concedidas.
Em vez de perder tempo roendo a si mesmo, o invejoso deveria simplesmente
entrar em contato com o gerente e perguntar os motivos que o fazem
distinguir um de outro fornecedor. Ele pode acabar descobrindo que
está em vantagem sobre os demais, sem nem mesmo saber disso...
IRA
São tantos os motivos que podem alimentar a ira de um tradutor
para com o gerente de projeto que se, ambos se deixassem cair em
pecado, talvez fosse melhor nem começar a trabalhar juntos.
Mais do que em qualquer outro dos pecados mencionados acima, a comunicação
pode impedir que a cólera se faça presente no relacionamento
entre contratante e contratado. Desde um e-mail com pontuação
duvidosa até uma chamada telefônica mal atendida, inúmeras
circunstâncias podem transformar amor em ódio. Ouça
pacientemente quando levar uma bronca que fez por merecer, mas se
julgar a acusação injusta, tente ser o mais racional
possível, mostrando os pontos de sua defesa e argumentando
com riqueza de detalhes e provas cabais. Mas se, por algum motivo,
o estabelecimento da fúria for inevitável, o ideal
é deixar o tempo curar as feridas abertas desta relação
tão delicada. Se achar conveniente, tente uma aproximação
mais tarde, quando os ânimos estiverem mais tranqüilos
e a raiva do momento já tiver passado. Aquele que guarda
rancores é o maior prejudicado.
"Mas,
vem cá!", você pode estar se perguntando, "Então
é só venha a nós o vosso reino e nunca será
feita a minha vontade?" Se isso foi o que você conseguiu
apreender das linhas acima, das duas uma: não fui claro o
bastante e preciso urgentemente melhorar minha comunicação,
ou você simplesmente não percebeu que cada uma das
situações colocada acima é um conselho de quem
já esteve do lado de lá e que hoje, à frente
da Ccaps, está sempre pensando em como fazer com que agência
e tradutor se entendam melhor e juntos ofereçam ao mercado
uma produção cada dia mais qualificada e séria.
Não quis ser aqui a palmatória do mundo nem advogado
do diabo, mas se você teme o inferno da falta de trabalho
ou do serviço mal pago, pode querer testar uma vida profissional
sem pecados e se transformar em um deus poderoso do ofício,
soltando trovões de qualidade como um tradu-Thor. Ou se manter
inabalável na rigidez de um trabalho bem feito, transformando-se
em uma tradu-Tora (com "o" aberto) sem deixar jamais macularem
sua madeira de lei. A escolha é só sua.
Por
fim, se conselho é a última coisa que você queria
ouvir e perdeu todo esse tempo lendo o artigo, resta-me apenas pedir
ajuda à Mary Schmich, uma jornalista do Chicago Tribune,
que em 1997 publicou em sua coluna um texto que mais tarde fez sucesso
em todo o mundo pelas mãos de Baz Luhrmann. Peço desculpas
por deixar o texto no original, mas deixo para você a tarefa
de traduzi-lo com maestria. Essa que é uma das canções
mais belas que ouvi nos últimos tempos termina assim:
Be
careful whose advice you buy, but be patient with those who supply
it. Advice is a form of nostalgia. Dispensing it is a way of fishing
the past from the disposal, wiping it off, painting over the ugly
parts and recycling it for more than it's worth.
Bom
trabalho!
1
Apesar
dos louváveis esforços da ABRATES, infelizmente, não
podemos dizer que já exista hoje um padrão de certificação
de qualidade para o setor. A necessidade de se estabelecer um ISO
para a tradução, entretanto, é discussão
para outro longo artigo...
|