Fazendo
negócios na China: as regras estão mudando
Paul
Denlinger
A
visão de um especialista sobre o processo a longo prazo
para ser bem-sucedido no mercado chinês
|
| |
| O
gigante despertou. A China tornou-se a economia de grande
porte com mais rápido crescimento nos últimos
cinco anos. Enquanto a maioria dos norte-americanos
se acostuma a ver produtos chineses nos Wal-Marts e
em outras lojas, a China vem rapidamente se tornando
o principal mercado consumidor de produtos e serviços.
O mercado chinês já é o único
grande consumidor de produtos de conveniência
em várias categorias. Para muitos indivíduos
e empresas americanas, isso significa que os EUA deixarão
de ser o maior mercado consumidor a comercializar bens
e serviços com um mercado estrangeiro que, aparentemente,
não segue as mesmas regras às quais estão
acostumados.
A
China é uma bolha ou estamos presenciando uma
mudança tectônica?
Para muitos americanos e observadores da Ásia,
a ascensão da China se assemelha à do
Japão na década de 80. Naquela época,
observadores políticos estavam preocupados com
a possibilidade de o Japão abocanhar a liderança
dos Estados Unidos em áreas que incluíam
a computação, fabricação
de veículos e eletroeletrônicos. Publicações
sobre o Japão, como Japan as No. 1, de
Lester Thurow, aceleraram a demanda por livros sobre
os segredos do crescimento japonês nos negócios.
Mas em 1990, estourou a bolha da bolsa de valores e
do mercado imobiliário de Tóquio e desde
então, na maior parte do tempo, a economia japonesa
vem se retraindo.
Enquanto
isso, os Estados Unidos se recuperaram. Em meados da
década de 90, a Internet decolou, acelerando
o crescimento de várias novas empresas, principalmente
no Vale do Silício, mas também em outras
partes do país. Essa expansão durou até
o colapso do mercado de ações em 2000.
Deste cenário, contudo, algumas novas empresas
líderes emergiram, inclusive Yahoo!, Google e
Amazon. Essas empresas prosperaram e se tornaram motores
de inovação nos Estados Unidos. |
| |
 |
De
tal modo que agora é comum ouvir americanos
se perguntando: "A situação na
China hoje é semelhante com a do Japão
nos anos 80?" ou "Não seria a China
uma bolha esperando para estourar, como o Japão?"
Existem diferenças fundamentais entre a China
dos anos 2000 e o Japão dos anos 80. Em primeiro
lugar, a ascensão do Japão foi baseada
principalmente nas exportações de
equipamentos eletrônicos e automóveis
para os Estados Unidos. Embora as exportações
chinesas de eletroeletrônicos para os EUA
sejam significativas, até agora elas têm
se utilizado de outras marcas, já que as
empresas chinesas ainda não têm suas
próprias marcas e canais internacionais estabelecidos,
como ocorreu com o Japão nos anos 80. Ainda
não existem Sonys ou Panasonics chinesas.
Os sul-coreanos são líderes nessa
área, estabelecendo a Samsung e a LG como
as principais marcas de equipamentos eletrônicos.
Mas esta é uma área na qual as empresas
chinesas irão se expandir na próxima
década. E abastecidas pelos ganhos no imenso
e altamente competitivo mercado local chinês,
elas terão para gastar o dinheiro que o agressivo
marketing internacional exige. |
|
| |
| Quando
isso acontecer, é muito provável que os
chineses comecem a atuar na área de telefonia
celular, setor que não existia na década
de 80, em que eles são os líderes atuais.
Os chineses já estão um passo à
frente dos japoneses, forçando os padrões
chineses de tecnologia em direção a novos
caminhos nas comunicações.
Diferentemente
do Japão, a China ainda não começou
a exportar automóveis para os Estados Unidos
e outros mercados. Entretanto, o país tem hoje
as fábricas de automóveis mais modernas
do mundo, muitas delas construídas e de propriedade
de líderes famosos, como a BMW, Volkswagen, Toyota,
Honda, GM e DaimlerChrysler. Todas essas indústrias
estão produzindo para o mercado local chinês,
e todas têm planos de começar a exportar
das fábricas chinesas para outros mercados internacionais.
A Toyota construiu sua segunda fábrica para criar
o híbrido Prius (o primeiro fora do Japão)
em Changchun e iniciará as exportações
dentro de um a dois anos.
Como
a indústria automobilística mundial está
sofrendo de superlotação, é natural
esperar que as fábricas de automóveis
em outros mercados importantes fechem e a produção
passe para a China. Para cada fabricante, a China oferece
imenso potencial como mercado e uma economia significativa.
Mas nem toda essa economia tem a ver com a China. Para
os líderes americanos na fabricação
de automóveis, a economia vem da não necessidade
de pagar fundos de pensão, pois eles são
exigidos por diversos acordos sindicais no mercado interno
norte-americano. É seguro afirmar que, quando
as exportações chinesas de automóveis
começarem, elas exercerão um impacto significativo
e, muito provavelmente, pressionarão por uma
redução nos preços e diminuirão
as margens de lucro dos fabricantes.
No
aspecto social, as mudanças pelas quais o Japão
passou nos anos 80 não foram tão amplas
e não se difundiram para muito além do
alcance como ocorre com as mudanças atuais na
China. A primeira e mais evidente delas é a diferença
na população. Enquanto o Japão
tem uma população de 150 milhões,
a população oficial da China é
de 1,3 bilhões de pessoas (estimativas não
oficiais afirmam que esse número pode chegar
a 1,8 bilhões). Em termos econômicos, isso
significa que a China tem uma população
cuja escala é muito maior do que os mercados
norte-americanos ou japoneses.
A
China está expandindo agressivamente seu investimento
em infra-estrutura, principalmente nas áreas
de transporte e logística. Grande parte disso
é apenas para compensar a quase total falta de
investimento em infra-estrutura no período de
1950 a 1980. |
|
Vendas
de automóveis na China (janeiro de 2000
- outubro de 2004)
Baseado nas cifras publicadas pela Associação
chinesa dos fabricantes de automóveis |
|
|
Sendo
assim, será a China uma bolha de fato? E pode
essa bolha estourar? Sem dúvida, há uma
imensa quantidade de desperdício na economia
chinesa. Ninguém pode sequer começar a
quantificar esse desperdício. Além disso,
uma boa parte desse crescimento é um crescimento
inócuo, investimentos que não são
eficientes e não fazem sentido economicamente.
As empresas chinesas, por exemplo, gastam uma grande
quantidade de energia, contribuindo para o aumento recente
nos preços do petróleo; sem mencionar
a poluição e os danos e custos ambientais.
Como o governo é o único importador de
petróleo, ele mantém os preços
artificialmente baixos, levando ao desperdício
e ao excesso de demanda.
Se
existe uma bolha e se ela estourar, seria seguro dizer
que toda a economia mundial seria afetada. Os bancos
centrais dos países asiáticos estão
financiando a dívida da economia norte-americana
e as taxas de juros dos EUA precisariam aumentar abruptamente
para compensar a queda súbita na demanda. Isso
criaria um efeito de onda catastrófico não
só para a economia dos EUA, mas para toda a economia
mundial.
Comparada
com os anos 80, a economia global hoje está muito
mais interdependente. Sob um ponto de vista econômico,
não faz nenhum sentido falar sobre economias
nacionais, pois os relacionamentos são muito
profundos. Poderíamos dizer que, se o crescimento
econômico da China continuar no ritmo atual, o
centro de crescimento da atividade econômica mundial
mudará dos Estados Unidos para a China e Leste
Asiático na próxima década. As
tendências mostram que a China já substituiu
os Estados Unidos como o maior parceiro comercial de
Taiwan, Coréia do Sul e Japão.
O
desafio para as empresas não chinesas
Existe uma suposição na mídia de
que as empresas chinesas pirateiam produtos americanos,
europeus e japoneses de qualidade e os vendem a preços
muito mais baixos, inviabilizando a concorrência.
Como conseguiriam as empresas não chinesas competir
em um mercado onde as regras não são claras
e estão sujeitas a alterações constantes?
Outra
grande barreira é de ordem cultural e lingüística.
A maioria das empresas norte-americanas tem se apoiado
em chineses étnicos de Taiwan, Hong Kong e China
para suas equipes de administração regionais.
Agora, contudo, a China está mostrando sinais
de se tornar um mercado tão importante que não
será suficiente que o conhecimento sobre a China
e o mercado chinês fique confinado somente ao
nível de administração do país.
Entretanto,
até o momento as empresas americanas têm
sido lentas em se adaptar à globalização,
e a maioria dos conselhos de empresas tem comparativamente
pouca experiência internacional no nível
operacional. Comparadas com as européias, que
têm muita experiência em lidar com idiomas
e culturas diferentes, as empresas norte-americanas
encontram-se em desvantagem. Se juntarmos o clima de
medo, especialmente com relação a coisas
"estrangeiras", engendrado nos Estados Unidos
após o 11 de Setembro, será possível
perceber que muitas empresas e indivíduos nos
EUA optaram por se recolher em seus casulos em vez de
se engajar no mundo.
Somados
a esses aspectos, há ainda as tendências
econômicas que não só preocupam
mas também não trabalham a favor dos Estados
Unidos. A atual política de comércio norte-americana
não é clara e carece de um foco evidente.
Enquanto as empresas chinesas vêm agressivamente
se livrando da pecha de produtos baratos e de baixa
qualidade, a maioria dos esforços se concentrou
na proteção dos direitos de propriedade
intelectual das principais empresas de entretenimento
dos EUA. Essas companhias estão enfrentando um
modelo de negócios decadente e não conseguiram
encontrar uma nova forma de fazer dinheiro com a chegada
da distribuição e digitalização
pela Internet.
E
qual a única categoria econômica que os
Estados Unidos vendem mais à China em termos
de valor? Soja. Por outro lado, a única categoria
de produtos que a China vende mais aos Estados Unidos
é a de eletroeletrônicos. Não é
preciso ser um economista para ver que há algo
de errado nesse quadro. Como podem os Estados Unidos,
com a maior economia do mundo, ter na soja sua principal
mercadoria de exportação para a China?
Existem outras economias que vendem soja à China,
incluindo Brasil, Argentina, Canadá e Austrália.
Obviamente, algo precisa mudar.
Na
busca pelo corte de custos e aumento da margem de lucro,
o governo dos EUA e diversas empresas americanas terceirizaram
a fabricação - e agora vários serviços
- para a China. A fabricação terceirizada
ajudou os chineses a melhorar suas habilidades de manufatura
e a atualizar as indústrias, que se tornaram
hoje as mais modernas do mundo. Isso, por sua vez, elevou
o padrão de vida chinês e, com a entrada
de capital de investimentos no país, promoveu
a expansão do mercado local.
Mas
essa situação abre espaço para
uma grande e surpreendente questão: "em
que os americanos são bons e como seus produtos
e serviços agregam valor para eles mesmos?"
Comparada com a China, a economia dos EUA é muito
mais dependente de serviços. A teoria econômica
tradicional nos diz que um país passa por três
diferentes estágios de desenvolvimento: primeiro,
agrícola; em seguida, o estágio de manufatura
e, por fim, o de serviços.
Estamos
nos tornando uma economia globalizada onde as fronteiras
nacionais são indistintas; um bom exemplo é
a União Européia. Isso significa, basicamente,
que não existe diferença entre as economias
local e internacional. Quando a diferença entre
a economia local e a internacional (estrangeira) fica
nebulosa, as únicas diferenças significativas
estão no idioma e na cultura. É exatamente
por isso que as empresas norte-americanas estão
em significativa desvantagem hoje. Mas isso pode (e
deve) mudar.
O
que significa isso tudo para os prestadores não
chineses de serviços para a China? Quais são
as oportunidades que se apresentam? Conseguirão
eles sobreviver às empresas chinesas, com sua
notória prática de preços agressivos?
A boa notícia: conseguirão sim. É
bastante possível, mas vai dar um trabalho danado.
Para os americanos e, principalmente, para as empresas
norte-americanas, essa situação requer
uma nova forma de pensar. Para muitas dessas empresas,
que gostam de correções rápidas
e soluções fáceis, a má
notícia é que não existem tais
coisas. Trata-se de um processo de longo prazo que exige
um investimento.
O
consumidor e a economia norte-americanos têm sido
o motor da expansão econômica desde o final
da Segunda Guerra Mundial. Devido ao imenso poder, força
e vitalidade da economia, as empresas norte-americanas
conseguiram, em grande escala, definir a maneira como
se costumava fazer negócios. E essa verdade também
se aplicava ao consumidor norte-americano, cujos hábitos
e gostos de consumo exerceram enorme influência
em todo o mundo. Essa fase chegou ao fim. Com a consolidação
e expansão da União Européia e
a ascensão da China, as regras de negócio
e os gostos dos consumidores mundiais serão muito
mais variados e dinâmicos.
Para
as empresas nos EUA, isso significa que elas não
poderão mais esperar que os negócios sejam
feitos "do jeito americano". Para as multinacionais
de grande porte, acostumadas a vender seus produtos
e serviços em vários mercados diferentes
e a empregar os melhores e mais inteligentes indivíduos
de todo o mundo, tudo isso não será problema.
Mas agora o desafio é enfrentado também
pelas pequenas e médias empresas. Elas descobriram
rapidamente que, devido às novas regulamentações
da Organização Mundial do Comércio
e às possibilidades tecnológicas da Internet,
precisam aprender rapidamente a competir em âmbito
mundial.
Existem
grandes tendências chinesas que as empresas podem
aproveitar para estabelecer uma posição
segura no mercado chinês. Eis algumas delas: |
 |
A
China está passando por uma rápida
fase de urbanização. O governo chinês
está migrando cada dia mais chineses do interior
para as cidades, adicionando mensalmente mais de
dois milhões de pessoas à população
urbana. Essas pessoas precisam de tudo o que os
citadinos em qualquer lugar do mundo precisam.
A
educação é o elemento fundamental
para o êxito social. Os chineses vêem
a educação como a chave para o sucesso
na sociedade. Combinado com a política
chinesa de um filho por casal, isso significa
que o sistema educacional chinês é
o maior e mais competitivo do mundo. Os pais estão
dispostos a gastar o que quer que seja para ter
certeza que seus filhos alcançarão
uma posição privilegiada.
O
governo chinês quer que as empresas chinesas
se tornem globalizadas. Embora os produtos chineses
possam ser encontrados em qualquer lugar a preços
razoáveis, isso não é o suficiente.
O governo vem incentivando as empresas chinesas
a criar marcas internacionais de sucesso. Até
agora, essas empresas ainda não chegaram
lá. |
|
As
empresas particulares chinesas querem se globalizar. Atualmente,
o setor privado no país produz mais do que as estatais.
Partindo de uma base chinesa, essas novas empresas precisam
estabelecer presença nos mercados internacionais,
mas não sabem como fazê-lo. O
setor de serviços precisa crescer. A capacidade
de fabricação chinesa é líder
mundial em termos de preço e qualidade, mas o
setor de serviços ainda é comparativamente
fraco e pouco desenvolvido. Esse setor terá o
crescimento mais rápido da próxima década.
A tendência de urbanização e educação
aumentará a demanda por serviços sofisticados.
A
concorrência se intensificará. A atenção
mundial voltou-se para o crescimento da economia chinesa,
e mais empresas entenderão que obter sucesso
no mercado chinês terá um papel importante
no êxito global. Trata-se do mercado mais competitivo
em vários setores de hoje. Mas essa concorrência
se intensificará ainda mais, pressionando as
margens para baixo à medida que as empresas buscarem
a dominação do mercado.
Quando
comparados aos compradores de outras economias, os chineses
possuem um nível mais elevado, o que aumenta
a importância da presença local e freqüentes
reuniões cara a cara. A boa notícia é
que os chineses são normalmente mais generosos
do que muitas empresas ocidentais quanto a doar seu
tempo.
As
empresas que se saem melhor são aquelas que conseguem
criar uma imagem chinesa usando executivos experientes
e bem treinados, familiarizados com os chineses ou educados
no Ocidente, mas de ascendência chinesa.
Mais
importante do que isso, a sociedade e a economia chinesas
estão passando por um período de rápida
mudança e a maioria dos acontecimentos não
é transmitida pela mídia ocidental. Para
alcançar o sucesso, os executivos precisam ser
capazes de fazer ajustes rápidos e de explorar
novas oportunidades. As empresas e indivíduos
mais bem-sucedidos são aqueles que se sentem
confortáveis vivendo e trabalhando em uma situação
fluida e de mudanças velozes e que sabem o idioma
chinês. Isso significa que o conhecimento local
e a capacidade de tomada de decisão são
de importância crucial.
Conquistar
o mercado chinês é um desafio e requer
um compromisso de longo prazo. As empresas e indivíduos
que se destacarem, aprenderem e obtiverem sucesso se
tornarão os líderes comerciais de amanhã. |
| |
| Reimpresso
da revista MultiLingual (2006, #72 Volume 16 Issue 4)
com permissão da Multilingual Computing, Inc.,
www.multilingual.com. |
|
| |
 |
| CEO
da China Business Strategy, Paul Denlinger ajuda
empresas a identificar parceiros e entrar no mercado
chinês, além de oferecer consultoria
a empresas chinesas em processo de globalização.
|
|
|
|
|