| Para
onde caminha a localização?
Donald A. DePalma
Veterano
do setor analisa perspectivas e oferece alguns caminhos a
seguir
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| Enquanto
escrevo este texto, duas pilhas de papel transbordam do
lado esquerdo da minha mesa. Uma delas contém anotações,
artigos e estudos de caso sobre as práticas recomendadas
para compra de serviços online. A outra pilha —
muito maior — contém uma variedade eclética
de notícias de consumo, negócios, cultura,
indústria automotiva, esportes, entre outros. São
textos sobre a globalização e seus efeitos
positivos, engraçados e surpreendentes. Esta segunda
pilha irá alimentar minha fábrica de idéias
para um futuro relatório, será o subtexto
para a próxima edição de Business
Without Borders e irá inspirar muitos papos
em coquetéis. Juntas, essas duas coleções
de papel representam dois possíveis futuros para
a prática da localização.
O
primeiro deles é um deserto para todos, com a
notável exceção da Ariba. A tradução
continuará descendo a ladeira escorregadiça
em direção à comoditização,
cujo resultado final será um leilão on-line
patrocinado pela Ariba com lances incrementais de 1/100
de um centavo de dólar. Esse leilão de
fato ocorreu recentemente nos Estados Unidos.
E
nós corroboramos com isso. Mês passado,
participamos a contragosto de nosso primeiro leilão
reverso. Nosso potencial cliente de consultoria desejava
comprar informações sobre gerenciamento
de conteúdo global, assistência na definição
de seus casos comerciais para globalização,
orientação para o isolamento dos processos
de requisitos e trabalhar para identificar e formalizar
as práticas recomendadas dentro da empresa. Nossos
contatos nos informaram que eles fariam a escolha com
base em um conjunto de critérios, não
apenas no preço. Mas não causou nenhum
espanto o fato de que, ao acessarmos nossa oferta, as
únicas informações que podíamos
ver sobre nossos concorrentes eram seus preços.
O único ponto de comparação operacional
para os interessados era o quanto seus concorrentes
estavam dispostos a receber pelo trabalho. Nem preciso
dizer que o contrato foi fechado com a empresa que ofereceu
o preço mais baixo. Como não fomos nós,
acho que não vai ser agora que vou começar
a dirigir aquele Porsche novo. Mas ainda posso ultrapassar
a maioria das minivans com meu Volvo T5 de uma década.
Nossa pesquisa demonstra um crescimento lento mas firme
de leilões online. Ouvimos cada dia mais histórias
de Provedores de serviços lingüísticos
(LSPs, Language Service Providers) pressionados pelos
preços em nome da aquisição e eficiência
científica. Esses compradores bem-informados
aprenderam algumas lições valiosas de
economia no supermercado, onde reduzir o preço
de uma lata em alguns centavos pode mudar o comportamento
do comprador. Considerando a quantidade de LSPs que
se posicionam na tríade de melhor preço,
maior qualidade e melhor serviço, para os compradores
fica fácil pressupor níveis iguais de
qualidade e serviço de qualquer fornecedor —
e testá-los quanto à promessa de melhor
preço. O parcimonioso representante do departamento
de compras se beneficiará do custo reduzido.
Mas todos sabemos que o comprador de fato de localização
se perguntará sobre as perdas da tradução
retoricamente atraente e da elegante localização
do produto, resultantes dessa preocupação
com o preço.
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O segundo futuro promete ser muito mais interessante,
mas não menos desgastante. Nesse cenário,
as empresas reconhecem que seus compradores vivem
em dezenas de países no mundo todo. Esses
países e seus consumidores estão interconectados
por setores, investimentos, indivíduos, informações
que se cruzam, sem contar a Internet. Seguindo a
liderança das empresas de software e hardware,
fabricantes em todo o mundo estão pensando
em lançamento simultâneo (ou simship,
do inglês “simultaneous shipment”),
distribuição, publicação
e marketing na Web. Esse novo modelo de simship
eleva o valor da visão e da inovação.
Ao mesmo tempo, ele aumenta consideravelmente a
capacidade de resposta do fornecedor, a possibilidade
de fornecimento com prazos mais apertados, a colaboração
entre compradores e fornecedores, e a automação.
Diversos fornecedores inventaram seus próprios
nomes. A SDL se refere a ele como “global
information management” (gerenciamento global
de informações). Já a Lionbridge
chama esse novo modelo de “Localization 2.0”.
Outros se referem a ele como a era do empreendimento
simultâneo. |
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O que há de diferente nessa nova onda de localização?
Dois anos atrás, chamávamos esse fenômeno
de empresa mundial real, enfatizando “empresa
mundial”. Os aspirantes a se transformar em empresas
mundiais enfrentam uma inundação de códigos,
conteúdos e dados que não respeitam fronteiras
nacionais, organizacionais ou corporativas. Eles precisam
criar processos independentes de idioma e local para
transformar esses conteúdos em formato, idioma
e estilo adequados às necessidades dos consumidores
em mercados e posições diferentes.
Três fatores contribuirão para transformar
as empresas à frente do seu tempo em verdadeiras
empresas mundiais e mudar a prática da localização
para sempre.
1. Muitos fabricantes já operam
como empresas de desenvolvimento de software. Java,
microprocessadores e Linux continuam a se infiltrar
em uma variedade cada vez maior de dispositivos. Fabricantes
de veículos, aparelhos médicos, telefones
e MP3 players periodicamente criam aplicações
multilíngües e baseadas em software para
mercados globais. A Nokia distribui 55 tipos de celulares
localizados para 80 idiomas. A Microsoft oferecerá
suporte a nove dialetos indianos em uma versão
do Windows personalizada para este subcontinente. Lançamentos
mundiais de ofertas complexas como o iDrive da BMW dependem
da disponibilidade de variantes localizadas em todos
os mercados ao mesmo tempo. Até mesmo as pequenas
empresas sentirão a necessidade de competir em
termos globais.
Os
grupos de desenvolvimento nessas empresas passaram a
se assemelhar a fornecedores independentes de software
no que tange a composição, métricas
e cronogramas. Eles administram códigos e fluxos
de conteúdo para os lançamentos de produtos.
Embora o fator custo sempre esteja presente, a disponibilidade
e o suporte são fundamentais nessas aplicações
de software da nova era.
2.
Pivôs de marketing global em sites da Web. Consumidores
em São Paulo podem acompanhar em casa produtos
e preços nos sites da Web assim que são
postados. Na melhor das hipóteses, essa transparência
sem fronteiras gera demanda. Na pior das hipóteses,
cria situações embaraçosas para
você, na medida em que exibe produtos que você
não pode oferecer porque não conta com
uma interface em português ou um distribuidor
brasileiro. Para evitar inconsistências e confusões
constrangedoras, as empresas mundiais a cada dia harmonizam
marca e mensagem em seus sites globais.
Nesse
cenário, as empresas se transformam em editores
casuais, distribuindo grandes volumes de informações
diretamente aos consumidores por meio de seus sites.
As empresas de viagens e lazer, os fabricantes de aparelhos
eletrônicos e automotivos encarregam-se de fornecer
mais ajuda na pré-compra e suporte no pós-venda
por meio de seus sites. As informações
retoricamente atraentes e personalizadas fornecidas
nos principais idiomas e dialetos serão a regra.
3.
As empresas mundiais atravessam as fronteiras. A maioria
das empresas irá considerar as operações
“estrangeiras” como fora do escopo da empresa
em tempo real — até que a próxima
surpresa indesejável apareça em uma unidade
de negócios que opera em um idioma, moeda e prática
desconhecidos na sede da empresa. Nos últimos
meses, temos visto empresas como Google, Disney e Yahoo,
e países como a Dinamarca serem surpreendidos
por respostas locais e globais às suas ações
em mercados que julgavam independentes. Esses fatores
exigem o monitoramento, análise e transferência
de grandes volumes de informações onde
quer que sua empresa opere, gerando uma nova carga nos
sistemas de gerenciamento de bancos de dados, conhecimento
e recursos empresariais.
O que isso significa na prática? Para participar
da promessa do empreendimento mundial, as empresas precisarão
pensar menos no fato de serem americanas ou alemãs,
e mais em estruturas, produtos, organizações
e aplicações que trabalham globalmente,
em primeiro lugar, e nacionalmente, em segundo. Para
fazer valer essa visão, elas precisarão
adotar e adaptar as técnicas de lançamento
simultâneo de produtos digitais, produtos com
conteúdo multilíngüe incorporado,
fluxos de dados internos e comunicações
intercorporativas através das fronteiras internacionais.
Isso não será novidade para os grandes
fornecedores de software e hardware que fazem o lançamento
simultâneo de produtos a diversas localidades
internacionais. Entretanto, esse esforço desgastará
as organizações de desenvolvimento, marketing
e suporte acostumadas a lançamentos simples de
produtos dentro de apenas um mercado nacional.
O
modelo de empresa mundial abre uma oportunidade para
que os profissionais de localização de
hoje possam dividir sua experiência em simship
com o resto da indústria, e para que os fornecedores
possam distinguir seu desempenho no rápido desenvolvimento
de produtos, aplicações e conteúdo
em muitos idiomas para diversos mercados. Acredito que
tanto usuários quanto fornecedores apostariam
mais no segundo tipo de futuro do que na loucura de
supermercado presente nos leilões e nos inevitáveis
centavos descontados desse modelo. |
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| Reimpresso
da revista MultiLingual (2006, #79 Volume 17 Issue 3)
com permissão da Multilingual Computing, Inc.,
www.multilingual.com. |
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Donald A. DePalma, fundador
e presidente da Common
Sense Advisory,
é o autor de Business Without Borders:
A Strategic Guide to Global Marketing. |
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