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Tenho de dizer que já estou cansado de ouvir clientes
finais, donos de agências e gerentes de projeto falando
mal de tradutores e editores. Por outro lado, também
estou cansado de ouvir tradutores e editores falando mal de
clientes finais, donos de agência e gerentes de projeto.
Achar defeito no trabalho dos outros é muito fácil,
mas pouco útil, por pelo menos duas razões:
primeiro, a gente ganha muito pouco falando mal dos outros
e, segundo, os outros geralmente não dão a mínima
para o que a gente diz.
Isso dito,
faço aqui a solene promessa de nunca mais criticar
clientes finais, donos de agência e gerentes de projeto.
Mas certamente vou criticar a mim próprio e aos membros
da minha tribo, a tribo dos tradutores e editores. Um pouco
de autocrítica, um pouco de mea culpa, não faz
mal a ninguém, desde que seja uma crítica honesta
e inclua um certo esforço para abandonar os caminhos
do pecado. Não, acho que vou fazer uma coisa melhor:
em vez de autocrítica, vou escrever uma lista de decisões.
Estamos longe do ano novo, mas não vejo problema. Qualquer
época do ano é boa para tomar decisões.
Minhas decisões de meio do ano. Sempre me considerei
um inovador.
Prometo
que vou sempre passar o revisor ortográfico mais uma
vez antes de entregar o serviço.
Uma vez, decidi fazer uma mudança de última
hora em uma tradução para uma agência
americana, onde ninguém entendia uma palavra de português.
Fiz um “substituir todos” e, em conseqüência,
mudei não só a palavra que queria mudar, como
também as tripas de uma outra palavra mais comprida.
Não me perguntem qual: prefiro esquecer essas coisas.
Depois, o pessoal de DTP formatou o texto e mandou para o
cliente final, que sabia português e quase teve um infarte.
Se eu tivesse passado o revisor ortográfico mais uma
vez, antes da entrega, teria poupado o cliente de um grande
constrangimento e eu próprio não iria sofrer
o prejuízo financeiro que sofri. E, já que estamos
falando nisso, também prometo nunca mais usar o comando
“substituir todos”.
Quando
estiver editando o serviço de um colega, prometo que
nunca vou fazer uma alteração sem uma justificativa
melhor do que “porque fica melhor assim”.
Uma das coisas mais irritantes para um profissional é
ver seu trabalho cheio de alterações aparentemente
sem proveito nem finalidade. O gerente de projeto, que muitas
vezes não sabe português, quando o cliente é
estrangeiro, fica sem entender o que está acontecendo
nem o que fazer. O tradutor fica zangado e tudo o que o editor
tem a dizer é “bom, fica melhor assim”.
Nem sempre a gente pode justificar todas as alterações
com gramática e dicionário, mas, pelo menos
tente dizer coisas do tipo para manter a uniformidade, ou
para melhorar a coerência. Comecei a agir assim e, aos
poucos, estou desenvolvendo um conjunto de regras claras e
precisas para melhorar a qualidade das traduções
que reviso, isso para não falar das minhas próprias.
Não
vou ficar furioso por causa de alterações de
revisores.
Se o revisor fizer uma alteração aceitável
em minha tradução, eu vou aceitar. Se a alteração
for inaceitável, entretanto, vou conversar com o gerente
de projeto e tentar explicar claramente por que eu não
concordo com ela. Não há motivo para começar
cada um de meus comentários com alguma coisa do tipo
“esse cri-cri imbecil…”. Simplesmente, vou
tentar citar alguma prova de que estou certo. Por exemplo,
a ortografia brasileira é governada por lei (2623/55,
com suas emendas) e o regulamento pode ser encontrado em qualquer
dicionário. Veja a regra 53 e note que ela dá
pleno apoio à minha pontuação. Se você
não leu a regra 53, abra o dicionário e leia
agora. Talvez você tenha uma surpresa.
Vou
conferir a formatação de minhas traduções.
Faz muito tempo que decidi aprender a formatar um documento
direito com o Word. Nada de muito especial: O Word não
é o QuarkExpress e eu não presto serviços
de editoração eletrônica. Mas certas coisas
como usar tabelas e tabulações corretamente,
formatar parágrafos deslocados como se deve, em vez
de usar marcas de parágrafo e espaços, coisas
desse tipo. Se você não está entendendo,
então você precisa passar uma tarde com uma boa
introdução ao Word for Windows. Quando terminar
a tradução, veja se em algum lugar há
dois espaços consecutivos. Salvo se o texto for em
inglês e os dois espaços consecutivos forem usados
no fim de uma sentença (e de todas as sentenças),
não deve haver nenhum caso no texto todo. Muitas vezes,
batemos a barra de espaço duas vezes ou mais entre
uma palavra e outra e muitos de nós esquecem de apagar
os espaços que sobram antes de entregar o serviço
e, assim, o texto fica parecendo queijo suíço.
Os espaços no início da linha ou antes de marcas
de parágrafo ou tabulação também
são um mau costume. Não deixe de aprender a
usar o tabulador. E nunca use um hífen quando deveria
usar um travessão, por favor. Mas também nunca
use dois hífens quando deveria usar um travessão.
Aquele pessoalzinho bom que edita seu trabalho ou faz editoração
eletrônica vai ficar grato e, quem sabe, lembrar de
você nas suas orações. E é mais
provável que o cliente lembre de você para um
outro serviço.
Vou
respeitar as convenções tipográficas
da língua de chegada.
Os números em inglês seguem a regra do NNN,NNN.NN
e em português a do NNN.NNN,NN; não faz diferença
se a gente está contando dólares, reais ou camelos.
Também vou respeitar todas as convenções
sobre uso de maiúsculas e pontuação.
Não
vou aceitar serviços que não possa fazer.
O cliente (ou o gerente de projeto) pode bater a cabeça
na parede, se quiser, mas não vou aceitar um prazo
apertado demais. Não vou dar ouvidos àquela
história de que é um serviço fácil,
porque sei que isso não existe. Não vou dar
ouvidos àquela história de que uma “minuta”
serve, porque sei que o mesmo sujeito que diz que quer o texto
“só para informação” é
exatamente o mesmo que depois vai dizer que eu fiz um serviço
porco e cobrei um dinheirão. Evidentemente, isso significa
que vou aprender a fazer estimativas realistas do tempo necessário
para fazer um serviço. Nunca mais vou dar uma olhadinha
e dizer “tá bom, acho que vai dar.”
Vou
fazer questão de ter tudo por escrito.
Não estou dizendo que os clientes sejam desonestos.
Mas a melhor maneira de evitar mal-entendidos é escrever
tudo antes de começar a trabalhar: taxas, datas de
entrega e quantificação. Se a contagem se basear
no original, peça ao cliente a contagem e aceite antes
de começar. Se o cliente insistir em uma contagem um
pouco menor que a sua, não reclame: cada versão
do Word for Windows dá uma contagem diferente. Simplesmente
aceite as pequenas diferenças como coisa da vida. Se
a diferença for grande, investigue o assunto. Se a
taxa for boa, às vezes até uma contagem baixa
demais pode ser aceitável. Nesse caso, não reclame.
Se a paga final for baixa demais, não aceite o serviço.
O que importa é que tudo deve estar por escrito e bem
explicado. Quando receber as informações do
cliente, leia tudo direitinho. Monstros terríveis muitas
vezes se ocultam por detrás de um palavreado aparentemente
inofensivo. E, finalmente, nunca aceite nada que o cliente
diga que é somente “para constar”. É
justamente esse trecho que o cliente vai pedir para você
ler muito cuidadosamente, quando chegar a hora. E, se o acerto
vier em forma de e-mail, imprima e pendure onde você
veja. Combinar tudo por escrito, conferir o combinado direitinho
e deixar tudo sempre à vista são um dos meios
mais importantes para assegurar a satisfação
do cliente. E, como você sabe, cliente satisfeito é
cliente que volta.
Vou
sempre cobrar o máximo e fazer um serviço tão
bom quanto possível.
Vou sempre procurar conseguir o maior pagamento possível
por qualquer serviço que aparecer. Mas, depois de aceitar
o serviço, vou esquecer quanto estou recebendo e fazer
a melhor tradução que puder. Jamais vou fazer
uma tradução de segunda e dizer que está
até que boa demais para o que estão pagando.
Essa estratégia é contraproducente, porque,
quando alguém precisar de um bom tradutor, vai provavelmente
oferecer ao sujeito que fez a tradução melhor,
não a quem fez uma tradução “compatível
com o preço”.
Não
mentirei.
Se não puder terminar o serviço em tempo, vou
dizer “Desculpe, subestimei o tempo que precisava para
essa tradução”. Ninguém mais acredita
naquela história do HD novinho em folha que deu pau
mais uma vez ontem.
Vou
sempre conferir minha tradução, para ver se
tem tradutorês.
Tradutorês é aquela língua esquisita que
você só encontra em traduções.
Não existe razão alguma para que uma tradução
pareça esquisita. Se você está traduzindo
para o inglês, por exemplo, procure coisas como “The
legislator of our fatherland found it to be a good thing to
allow such action, being that under the previous legislation
it was held to be illegal”. Se estiver traduzindo para
o português, procure coisas do tipo Suficientes dados
não estão disponíveis para que pudéssemos
tornar nossas ações consistentes com…
Não há justificativa para uma coisa dessas.
Também procure coisas que não fazem muito sentido
para você, porque, se não fizer muito sentido
para você, provavelmente não vai fazer sentido
algum para o leitor.
Não
vou tentar “melhorar” o original.
Tenho grande orgulho de meu trabalho como tradutor e não
sinto o ímpeto de mostrar aos leitores de minhas traduções
que grande escritor que eu sou. Por isso, não tento
“melhorar” os originais que me confiam para traduzir.
No início, muitas vezes eu tentava, até adicionando
alguma coisa que achava de interesse, ou omitindo coisas que
eu achava inúteis. Não faço mais isso.
Com os prazos que tenho, mal dá para fazer uma tradução
decente. E, de um modo ou de outro, quem lê a tradução
tem o direito de saber o que o autor disse, não o que
eu acho que ele deveria ter dito.
Não
vou discutir com o cliente por causa de preferências
de vocabulário e sintaxe.
Se o cliente quiser mudar o texto, pode mudar à vontade.
Vendi o texto para ele, e ele agora é o dono do texto.
Essa é uma das razões pelas quais não
gosto de assinar traduções. Finalmente, reservo-me
o direito de jamais trabalhar para o cliente de novo –
quer dizer, se eu encontrar outro melhor.
Não
vou contradizer meu cliente.
Se o cliente disser que a irmã dele poderia fazer a
tradução, não vou abrir a boca. Se o
cliente disser que o primo dele tem um programa que pode fazer
a tradução, não vou discordar. Se o cliente
disser que, se eu insistir nesses preços abusivos,
ele vai pedir para a filha dele fazer a tradução,
vou, muito educadamente, dizer “desculpe, esse é
o mínimo absoluto que eu posso cobrar”, sem uma
sombra de ironia, desligar, e deixar que ele se dane.
Não
vou falar mal de colegas, mas, se encontrar erros de tradução,
vou apontar.
Jamais vou dizer “não dê essa tradução
para a Fulana, a mulher é quase analfabeta”,
mesmo se souber com certeza que ela é mais burra que
a mãe da burrice. Entretanto, vou dizer ao cliente
que não acho mandate of security uma tradução
decente para mandado de segurança e não quero
saber quem disse que era.
Não
vou brincar com taxas e condições de pagamento.
Só vou aceitar o serviço quando o cliente e
eu estivermos de acordo quanto a taxas e condições
de pagamento, e o cliente entender exatamente o que está
pagando. As agências sabem exatamente o que estão
fazendo, mas muitos clientes finais não têm idéia.
Por exemplo, quando o cliente é brasileiro, provavelmente
vai pensar que a lauda equivale a uma página de seu
texto, o que não é verdade. Algumas agências
pagam de acordo com o original, outras, pela tradução,
e essas coisas precisam ser combinadas antecipadamente. E,
feito o acordo, vou cumprir tudo cuidadosa e estritamente.
Por exemplo, se o pagamento não estiver na minha conta
na data combinada, o cliente vai ficar sabendo no dia seguinte,
logo cedo.
Jamais
vou me apresentar como “free lance”.
Acho esse termo pejorativo. Um “free lance” é
um soldado mercenário e eu não sou “soldado
da fortuna”. Sou tradutor profissional e faço
o máximo para me conduzir como deve um profissional
liberal.
E, finalmente...
Não
vou resmungar.
Estou cansado de ouvir tradutores, revisores, donos de agência
e gerentes de projeto que vivem reclamando de tudo, do tanto
que trabalham, do pouco que ganham, dos clientes e fornecedores
incompreensivos e desonestos, de tudo. Considero reclamar
um desperdício de tempo e energia. Vamos investir nosso
tempo e energia em melhorar nossa sorte.
Vera e Danilo Nogueira são
brasileiros e moram em São Bernardo, na Grande São
Paulo. Lidam com línguas desde que se casaram, em 1967.
Atualmente, além de tradutores e revisores, dão
treinamento no uso de programas de auxílio à
tradução. Além disso, estão escrevendo
uma série de glossários técnicos, nas
áreas de sua especialidade, centradas em finanças.
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