Como se tornar um consumidor de tradução instruído
Parte II
Corinne McKay


Selecionando um fornecedor de tradução

A primeira pergunta que você precisará responder ao selecionar um fornecedor de tradução é se irá selecionar tradutores independentes e ser o próprio gerente do projeto, se usará uma agência de tradução ou se optará por uma solução conjunta, com um gerente de projeto autônomo. A melhor opção dependerá do talento interno disponível, do orçamento e do escopo do projeto. Embora não esteja completa, eis uma lista dos prós e dos contras de cada modelo de compra de tradução.

Gerenciando o projeto internamente com tradutores autônomos:
Prós: Normalmente é a opção mais em conta — pode resultar em uma economia de 40% ou mais se comparada ao uso de uma agência; pode funcionar bem se o projeto possuir poucos pares de idiomas; você define os termos do acordo; se vai receber os arquivos da TM no final do projeto, por exemplo; permite que sua empresa utilize tradutores locais, se houver, e os conheça pessoalmente; evita o uso de um “intermediário” para se comunicar com os tradutores.

Contras: Requer funcionários com tempo e conhecimento para recrutar e gerenciar os tradutores; caberá a você julgar a qualidade do tradutor; não há garantia independente de que o projeto será concluído dentro do prazo e do orçamento; pode ser difícil encontrar tradutores em idiomas pouco difundidos ou um grande número de tradutores em um idioma.

Se você escolher esse caminho, a próxima etapa será localizar e selecionar os tradutores freelance para o projeto. Possivelmente, a melhor maneira de encontrá-los é por recomendação de uma empresa que já tenha realizado projetos multilíngües de um setor semelhante. Outros bons locais para se procurar são o site da ABRATES (http://www.abrates.com) e da ATA (http://www.atanet.org). Ambas as associações qualificam tradutores em diversos pares de idiomas. Algumas embaixadas, consulados e organizações culturais, como a Aliança Francesa e o Instituto Goethe, dispõem listas de tradutores autônomos em suas regiões. Diversos tradutores colocam anúncios nas Páginas Amarelas, na Web ou em fóruns, como http://www.translatorscafe.com, http://www.gotranslators.com e http://www.proz.com

Perguntas a serem feitas aos tradutores autônomos em potencial:
Qualificações gerais: Você é um falante nativo do idioma de destino deste projeto? Qual é seu histórico profissional e acadêmico? Há quanto tempo trabalha como tradutor? Você é membro de alguma organização profissional? Você possui algum certificado de tradução no par de idiomas que traduz? Para tradutores que não vivem no país onde se fala o idioma do qual são nativos, com que freqüência você visita o país do idioma do qual é falante nativo e como você fica a par das alterações lingüísticas?

Qualificações específicas do projeto: Você fez algum treinamento e/ou tem alguma experiência nesse ramo (por exemplo, aeroespacial, engenharia, agricultura, hidrologia, história da arte, hardware etc.)? Pode enviar amostras de seu trabalho em projetos semelhantes? Pode fornecer referências de seu trabalho em projetos semelhantes?

Definição da tecnologia: Qual tipo de sistema de computador você possui? Possui Internet de banda larga e/ou linha de fax exclusiva, se for necessário? Usa algum programa de memória de tradução? Faz backups diários dos arquivos eletrônicos?

Procedimentos de trabalho: Qual é sua produção diária de tradução (a maioria dos tradutores produz de 400 a 600 palavras por hora, e de 2000 a 3000 palavras por dia)? Está disponível para trabalhar em tempo integral ou trabalhará para outros clientes ao mesmo tempo? Está disposto a trabalhar em uma equipe com outros tradutores? Faz outro tipo de serviço além da tradução, como edição e formatação? Estará disponível para fazer revisão após a conclusão do projeto? Cobrará a mais por esse serviço? Há um prazo para lhe solicitarmos revisões, se necessárias?

Negociações: Quanto você costuma cobrar por palavra? Cobra pelo número de palavras de origem ou de destino? Dá desconto para volumes maiores de trabalho ou projetos contínuos? Cobra a mais por horas extras ou trabalho urgente? Se utilizar um programa de memória de tradução, seu preço inclui a devolução dos arquivos da memória? Em caso negativo, quanto custam esses arquivos? Seu preço inclui a edição e revisão feitas por terceiros? Você tem condições de fornecer edição e revisão feitas por uma outra pessoa a um custo adicional?

Pagamento: Quais são as condições normais de pagamento? Para projetos grandes, o pagamento deve ser feito adiantado ou em parcelas? Qual é a forma de pagamento de sua preferência? Aceita cartão de crédito? Oferece desconto para pagamento imediato; por exemplo, dentro de 10 dias após a conclusão do projeto?


Usando uma agência de traduções de serviços completos:
Prós: A empresa se beneficia da experiência da agência em recrutar tradutores, preparar documentos etc.; a agência em geral consegue recrutar tradutores de idiomas pouco difundidos e/ou muitos tradutores em um determinado par de idiomas; costuma assegurar a entrega dentro do prazo e do orçamento; administra o trabalho diário do projeto, inclusive dúvidas dos tradutores; trabalha bem com projetos longos e prazos apertados; pode ter acesso a tradutores que cobram mais barato.

Contras: A empresa precisa avaliar as qualificações da agência exatamente como faria se contratasse um tradutor; costuma ser a opção mais cara; os tradutores podem não estar na mesma região ou disponíveis para fazer reuniões; a empresa acaba trabalhando com os prazos da outra empresa, compromissos do tradutor e assim por diante.

Como ocorre com os tradutores freelance, é provável que você prefira receber a indicação de uma pessoa de seu setor que já tenha trabalhado com essa agência anteriormente. Além disso, agências de tradução também podem ser membros da ABRATES e da ATA. A Association of Language Companies (http://www.alcus.org) também possui um diretório de associados com links de acesso aos sites dos respectivos membros. Se preferir contratar uma agência local, você poderá pesquisar nas fontes mencionadas anteriormente, como Páginas Amarelas, Google ou entrar em contato com uma Câmera de Comércio para descobrir se entre os membros existe uma agência local a ela associada.

Perguntas a serem feitas aos futuras agências de tradução:
Qualificações gerais: Há quanto tempo sua agência está no mercado? Quais são alguns de seus clientes? Quantos funcionários tem sua empresa? Você trabalha com tradutores freelance, internos ou ambos (não se esqueça que quase todas as agências usam apenas tradutores autônomos)? Você é membro de alguma associação profissional de empresas de tradução? Como você seleciona e avalia seus tradutores freelance? Esses tradutores fazem algum tipo de teste? Seus tradutores são certificados no par de idiomas que traduzem? Todos os seus tradutores são falantes nativos do idioma de destino?

Qualificações específicas do projeto: Você já trabalhou com projetos desta área anteriormente? Poderia fornecer amostras e referências desses projetos? Já trabalhou com tradutores no par de idiomas que estamos solicitando? Em caso negativo, como fará o recrutamento e seleção desses tradutores no par de idiomas requisitado? Se nosso projeto tiver um grande volume de trabalho para ser executado em um curto período, quantos tradutores qualificados você terá para esse par de idiomas? O que nossa empresa terá de fazer para preparar o projeto para tradução?

Definição da tecnologia: Que tipo de sistemas operacionais você possui? Se necessário, você possui Internet de banda larga e/ou linha de fax exclusiva? Todos os seus tradutores utilizam programas compatíveis com memória de tradução? Faz backups diários dos arquivos eletrônicos? Faz backups em outro computador externo?

Procedimentos de trabalho: Qual é o prazo de entrega para um projeto dessa dimensão? Se precisarmos do projeto antes da data prevista, teremos de pagar pelas horas extras ou taxas de urgência? Qual é o horário de funcionamento do escritório, se houver necessidade de entrar em contato com você por telefone? Existe uma cobrança adicional para reuniões pessoais e/ou viagens? As traduções serão editadas e passarão por um processo de revisão final? Quem fará esse trabalho? Quais são as garantias que você oferece de que nosso projeto será concluído no tempo acordado e dentro do orçamento previsto? Se houver necessidade, você poderá oferecer serviços de DTP, duplicação e gráficos? Está disponível para fazer revisões após a conclusão do projeto?

Negociações: Você fornece um orçamento fixo, ou o custo do projeto aumenta de acordo com o aumento de seus custos? Você cobra preços diferentes para pares de idiomas diferentes? O que está incluído neste orçamento que não seja tradução (editoração, revisão final, layout e outros)? Se utilizar um programa de memória de tradução, a entrega dos arquivos da TM está incluída no orçamento? Em caso negativo, qual é o preço desses arquivos?

Pagamento: Quais são as condições normais de pagamento? Para projetos grandes, você pede pagamento adiantado ou em parcelas? Qual é a forma de pagamento de sua preferência? Aceita cartão de crédito? Oferece desconto para pagamento imediato; por exemplo, dentro de 10 dias após a conclusão do projeto?

No meio dessas duas opções encontra-se a tendência crescente de se contratar um gerente de projetos autônomo — talvez um antigo funcionário de alguma agência, que agora começa a trabalhar sozinho e poderá administrar seu projeto cobrando mais caro do que se fosse executado por você, porém mais barato do que se contratasse uma agência. O fornecedor certo garantirá a média ideal entre a opção mais barata (porém a mais arriscada) do gerenciamento interno, e a mais cara (mas a mais confiável) de contratar uma agência.


Faça o vento soprar a seu favor
Após preparar as especificações de seu projeto e escolher um fornecedor que produzirá um trabalho de qualidade, não pense que seu trabalho está terminado. Não deixe tudo nas mãos dos outros. Há inúmeras publicações impressas e na Web que podem ajudar os clientes iniciantes de tradução a fazer o vento soprar em favor de um projeto multilíngüe de alta qualidade Uma fonte de consulta muito instrutiva e interessante é o artigo “Getting It Right,” (
http://www.atanet.org/Getting_it_right.pdf), publicado pela ATA e escrito por Chris Durban, especialista em tradução.

Imagine quais serão as perguntas do tradutor e prepare as respostas. Forneça o significado daquelas intermináveis abreviações: HVAC, PVC, CPU, P+S etc. Descubra se alguns dos termos que compõem a terminologia de sua área de atuação permanecem em inglês. Pense na hipótese de contratar um tradutor para elaborar um glossário multilíngüe para que os termos principais sejam sempre traduzidos da mesma forma, em vez de encontrar várias versões para palavras semelhantes. Pesquise as dificuldades da tradução de expressões idiomáticas. Os americanos, em especial, têm uma queda por metáforas esportivas, como “essa campanha de vendas será um gol de placa”, “teremos que jogar como se tivéssemos perdido nosso artilheiro”, “está na hora de virar o jogo” etc. Defina a terminologia para palavras que não possuem um equivalente no idioma de destino, como misdemeanor, strip mall, telemarketer, category killer, public defender ou total quality management.

Um projeto multilíngüe de alta qualidade permite que seu negócio alcance mercados e clientes nos quais seria impossível obter êxito apenas com material em inglês, consolidando sua imagem como a de uma empresa brilhante e internacional. É muito pior ter um material promocional pobre do que não ter nenhum material traduzido. Seguindo algumas regras básicas — preparar antecipadamente, selecionar o fornecedor adequado e oferecer o maior número de recursos possíveis ao fornecedor — você garantirá que seu material multilíngüe transmita a imagem de uma empresa profissional e internacional que respeita os clientes em todos os idiomas.

Corinne McKay é uma escritora freelance e tradutora de francês -> inglês certificada pela ATA.

(Essa é uma continuação do artigo publicado na edição anterior da Ccaps Newsletter. Consulte a edição anterior para ler Como se tornar um consumidor de tradução instruído – Parte I)

Copyright MultiLingual Computing, Inc., 2005, todos os direitos reservados. Este artigo foi publicado no número 69 da MultiLingual Computing and Technology.

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