O processo de tradução simultânea na ONU permite que cada representante fale em sua língua natal, tendo seu discurso traduzido na mesma velocidade em que falam. Uma palavra traduzida de forma incorreta, uma frase mal compreendida, uma tradução mal feita podem transformar um discurso inocente em um quase incidente internacional. Exemplos não faltam.
À medida que as nações africanas progridem, seus delegados tendem a salientar constantemente o abandono das antigas tradições tribais. Um delegado africano falante do francês certa vez declarou que “A África já não erige altares aos deuses” (L’Afrique n’érige plus des autels aux dieux). Mas o intérprete, pensando que a palavra autels era hôtels e que aux dieux era odieux, traduziu a frase como “A África já não constrói hotéis horríveis” (L’Afrique n’érige plus des hôtels odieux).
Na época da descolonização, um representante do então Império Britânico fazia um relatório das atividades de uma região africana sob custódia inglesa. Quando falava das tentativas dos nativos para combater a praga do besouro-rinoceronte, o tradutor de russo entendeu a palavra “rinoceronte”, mas não “besouro”. O delegado soviético, então, com a impressão de que a região estava sendo invadida por inúmeros rinocerontes, perguntou como os nativos estavam sendo equipados para resistir à terrível invasão. Recebeu a resposta de que os nativos recebiam uma vassoura e baldes com produtos químicos. Isso evidentemente pareceu ao russo uma prova da má vontade colonialista em distribuir armas decentes aos nativos para a proteção contra hordas de rinocerontes. Além disso, numa demonstração inédita de preocupação ecológica, perguntou por que deveriam ser exterminadas as últimas centenas de rinocerontes do local. O delegado britânico respondeu alegremente que “isso não é uma preocupação, ainda existem milhões desses animais. Todas as primaveras eles voam em grandes enxames e comem as cascas das árvores”.
Quando o intérprete procura improvisar ou adaptar um provérbio muito conhecido, às vezes provoca situações curiosas. Um intérprete do inglês para o espanhol, tentando traduzir o ditado “there is more than one way to skin a cat” para o espanhol, teve a repentina inspiração de adaptar o significado básico à tourada. Entusiasmado com a sua idéia, inventou um ditado que pensou ser um bom equivalente em espanhol: “Há mais maneiras de se pegar um touro do que agarrá-lo pelos chifres.” A sessão foi interrompida pelas gargalhadas dos delegados falantes do espanhol, receosos caso alguém tivesse a idéia de agarrar o animal por alguma outra das características marcantes do obviamente bem-dotado toro.
Intérpretes são utilizados há centenas de anos para que falantes de idiomas diferentes possam se comunicar. Existe o famoso caso de um embaixador de um dos cantões suíços na corte de Luis XIV que sabia francês o suficiente para saber que o que estava sendo dito em alemão ao monarca francês estava sendo traduzido como elogios exageradamente servis e lisonjeiros. Após o discurso, o embaixador repreendeu o intérprete dizendo que entendia um pouco de francês e que ele não havia traduzido o que havia sido dito. Ao que o intérprete respondeu calmamente: “É verdade, embaixador. Eu traduzi o que deveria ter sido dito.”
