O brilhante poeta João Cabral de Melo Neto comparou o ato de escrever com catar feijão. Esquisito? Talvez, mas a comparação não podia ser mais apropriada: ao realizarmos o processo físico de separação de misturas conhecido como catação (minhas aulas de química no ensino médio não foram tão inúteis, afinal) aplicando-o ao preparo de um bom feijão, estamos na verdade fazendo a mesma coisa que os escritores — escolhendo, separando, selecionando. A diferença é que, enquanto a dona-de-casa executa esse processo para preparar uma bela feijoada, o escritor o aplica de uma forma inusitada: procura pinçar os melhores itens vocabulares para poder colocar no papel exatamente o que quer dizer.
Essa metáfora sem igual com certeza pode ser ampliada ao campo da tradução. Nós, tradutores e revisores, também somos “catadores de palavras” por excelência. Aliás, os tradutores atuam não só como catadores, mas realizam os mais diversos tipos de atividade em sua profissão. Traduzir pode ser comparado a mergulhar uma esponja na água, montar um quebra-cabeça, brincar de jogo dos sete erros, fazer pizza e representar.
OK, presumindo que você não me julgou louco e que sua curiosidade o motivou a continuar lendo esse texto, que tal analisarmos essas metáforas?
Mergulhar uma esponja na água – quem já lavou louça pelo menos uma vez na vida sabe como uma esponja funciona. Você a mergulha na água e ela fica pesada, cheia, estufada. Em outras palavras, esse simples objeto de uso diário tem o poder de absorção. Na tradução, exercitamos essa mesma capacidade. Ao tomar o primeiro contato com o texto a ser traduzido, o tradutor procura fazer uma leitura abrangente, concentrada, de modo a absorver bem a idéia do texto. Começam a se formar em sua cabeça as primeiras escolhas vocabulares, o tom a ser empregado, a linguagem utilizada etc. É como uma preparação para a atividade principal.
Montar um quebra-cabeça – essa atividade bem simples pode ser executada da seguinte forma: pegamos uma peça qualquer e a comparamos com outras peças, de modo a encontrar a que melhor se encaixa junto a ela. E assim procedemos, peça a peça, até formarmos um todo harmônico. Traduzir é bem parecido. À medida que compomos as frases, vamos procurando as melhores palavras que se encaixam naquele contexto, dentro de um campo semântico. Por exemplo, há vezes em que a melhor palavra é “lembrar”; outras, “recordar”.

Brincar de jogo dos sete erros – ao finalizar uma tradução, é muito importante empregar uma técnica chamada “cotejo”. Cotejar uma tradução é fazer uma comparação minuciosa entre o texto produzido e o original, para garantir a fidelidade. Procuramos por passagens que talvez tenham sido puladas sem querer ou traduzidas incorretamente. Uma comparação atenta, como no jogo dos sete erros.
Fazer pizza – quem já fez uma, sabe: para que a massa fique com a consistência perfeita, é necessário que ela fique descansando por alguns minutos. Com a tradução ocorre o mesmo. Ao terminar o cotejo, o tradutor deve jogar o trabalho longe (não literalmente, claro). Deve se distanciar do texto por no mínimo um dia para que, ao fazer a revisão, tenha uma mente livre do conteúdo, o que o ajudará a detectar problemas antes despercebidos em função da concentração total empregada no processo tradutório.

Representar – o toque final na tradução é bancar o ator. O tradutor deve fazer exatamente como em representações: assumir o papel de outra pessoa, no caso, o de leitor. Só assim poderá verificar se o texto que traduziu está em bom português, ou seja, se as estruturas e o vocabulário empregados podem ser entendidos por qualquer falante da língua nativa. Nada pode soar estranho, ruim de se ouvir.
Bom, acho que é isso. Como vimos, traduzir é um processo realmente complexo e que demanda tempo. Há que se admitir, no entanto, que se todas essas etapas forem seguidas, teremos uma tradução de qualidade excepcional. Faremos todos bem em lembrar-nos desse processo trabalhoso, mas gratificante, ao valorizarmos o trabalho do tradutor e estabelecermos prazos de entrega de traduções com clareza.
