Muito se tem falado dos horrores que algumas pessoas têm feito à língua portuguesa ao trazer do inglês a construção “will be + verbo no gerúndio”. Essa expressão é irritante não só aos puristas da Flor do Lácio mas a qualquer pessoa porque não oferece nenhuma precisão quanto ao tempo futuro. “Vai estar ligando quando, minha filha?” já respondi num ataque de fúria, ao que a atendente bateu com o telefone na minha cara.Aparentemente trata-se de um caso explícito de (maus) tradutores influenciando o vernáculo, uma vez que “vou estar ligando”, “vou estar respondendo” e afins começaram a surgir em scripts de telemarketing e de atendimento automático e logo se disseminaram entre toda a população. Muitos de vocês ainda devem se lembrar do “a nível de” e “enquanto”. Assim, como essas duas pérolas, que curiosamente nasceram no meio acadêmico e foram se alastrando por toda a sociedade, o gerundismo surgiu em um setor profissional específico, ganhou as ruas mas agora já começa a ser devidamente execrado. Mas agora que consegui a sua atenção, vou estar explicando o porquê do título do post e minha teoria lingüístico-genealógica. A nível de parentesco lingüístico, acredito que o gerundismo esteja mais próximo do “o mesmo”, enquanto apropriação do inglês, do que das duas expressões acima. Por que? Quem traduz documentos jurídicos já deve ter se deparado com frases semelhantes a essa:
“And he by virtue of his signature to this treaty engages for himself and successors to declare the justice of the case according to the true interpretation of the treaty, and to use all the means in his power to enforce the observance of the same.”
Neste caso, o “the same” – corretíssimo na língua de Shakespeare – refere-se à palavra “treaty”. Mas se esse trecho tivesse que ser vertido para a língua de Camões ou Machado, não deveríamos traduzir “same” como de costume, mas alterar a estrutura da frase ou utilizar um pronome relativo adequado, como “este” ou “aquele”. Ou até mesmo repetir o substantivo e mandar ver com “o cumprimento do tratado”.
Em “Os anarfa lá de cima” (infelizmente, o link não está mais disponível), o jornalista Carlos Brickman chama a atenção para uma frase que também sempre me deixou de cabelos em pé: “Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se neste andar.” E olha que isso é texto oficial, seguido de um decreto federal (Lei/DF Nº 3212 de 30.10.03) e que pode ser encontrado em qualquer porta de elevador. Por que nunca corrigiram essa aberração por “Antes de entrar, verifique se o elevador está parado neste andar”? Mistérios do vernáculo e da política…
Mas voltando à minha dúvida: teriam em priscas eras os tradutores se apropriado de uma construção inglesa para criar a monstruosidade do “o mesmo” como pronome relativo? Ou seria essa uma obra frankensteiniana dos advogados que tratam de complicar qualquer texto por eles escrito na tentativa de soarem eruditos ou de enganarem seus clientes? Se a primeira opção for verdadeira, fica mais uma vez comprovado o poder que temos sobre o idioma. Mas também pode ser que não e minha idade não me permite ter um julgamento preciso. Sei que minha pergunta é semelhante a “eram os deuses astronautas”, mas se alguém se habilitar a trazer mais luz à discussão, seus comentários serão muito bem-vindos.
