Sempre ouvimos falar em espécies ameaçadas de extinção ou em floresta tropical à beira da destruição, mas uma nova ameaça tem preocupado os estudiosos no mundo todo: o provável desaparecimento das línguas.
Você sabia que, segundo a UNESCO, de um total aproximado de 7.000 línguas ainda existentes no mundo, cerca de 3.000 estão ameaçadas e 199 têm menos de dez falantes? Imagine só… uma língua com menos de dez falantes! É quase a mesma coisa que ter um código particular que só você, sua família e meia dúzia de amigos mais íntimos entendem. Há quem diga que lá pela metade deste século apenas um punhado de megaidiomas – mandarim, inglês, espanhol – será parcamente falado por quase todos os seres humanos.
Para melhor ilustrar a situação, a UNESCO criou um Atlas Mundial de Línguas em Risco de Desaparecimento, que aponta o grau de periculosidade que cada idioma corre e o país ou países onde ele é falado. A edição online do Atlas (disponível em inglês e em espanhol) fornece informações mais detalhadas sobre o número de falantes de todos esses idiomas e sobre políticas e projetos relevantes para salvá-los. É possível também consultar fontes, códigos ISO e coordenadas geográficas. A edição online é interativa. Você pode contribuir com novidades sobre o assunto e fazer atualizações para que o Atlas esteja sempre de cara nova na Internet.

Mas… por que precisamos dessas informações? E por que devemos nos interessar por esse assunto? Bem, além de preservar diferentes identidades culturais, os idiomas permitem que cada povo seja capaz de transmitir sua própria visão de mundo. Segundo os cientistas, manter em equilíbrio a vitalidade dos idiomas – tanto quanto manter em equilíbrio o meio ambiente – é essencial para a sobrevivência do homem. “Sempre que um idioma se perde, se perde também um pouco da nossa adaptabilidade e da nossa diversidade, elementos fundamentais para o nosso fortalecimento e capacidade de sobrevivência”, analisou Michael Krauss, professor emérito da Universidade de Alaska Fairbanks, durante sua fala no encontro anual da Associação norte-americana para o avanço da ciência, em São Francisco.
Os linguistas sabem a razão do desaparecimento dos idiomas. Mudanças demográficas, descaso governamental ou supressão de idiomas regionais e indígenas, degradação dos meios de comunicação de massa: todos esses fatores têm sua parcela de culpa. Mas não se enfatiza tanto o que acontece durante o processo de desaparecimento, ou seja, o fato de que o vocabulário, a gramática e o potencial expressivo dos idiomas diminuem.
Nick Evans, lingüista da Universidade Nacional da Austrália e autoridade de grande prestígio em línguas aborígines, explica em um artigo do The Australian: “Digamos que uma comunidade falante de um idioma aborígine tradicional comece a falar uma língua crioula. Bem, vamos apenas usar como exemplo o campo semântico em que se inserem as palavras que descrevem a natureza. Abandona-se uma língua cujo vocabulário referente a elementos da paisagem é muito refinado. Existe em uma língua todo um manual para manter a integridade da paisagem, para administrá-la, usá-la, para procurar coisas. Tudo isso desaparece em uma língua crioula. Sobram apenas algumas palavras como ‘eucalipto’ ou outra qualquer”.
“Tem vezes em que a fala das pessoas se compara à visão do
mundo através de lentes grossas e malfeitas:
você pode até não esbarrar nas coisas,
mas não enxerga toda a beleza dos detalhes.”
A UNESCO espera reverter esse processo com a conscientização sobre a extinção dos idiomas e com projetos de preservação. O Instituto dos idiomas vivos para línguas ameaçadas tem a missão de documentar, manter, preservar e revitalizar as línguas em extinção. O Instituto disponibiliza, para exibição online, o filme The Linguists, que documenta algumas línguas em estágio adiantado de extinção, em todo o mundo, no intuito de preservar seu legado, antes que desapareçam. Por exemplo, você sabia que 80% das espécies existentes na fauna e na flora ainda não foram nomeadas ou classificadas pela ciência ocidental ou não foram ainda batizadas com nomes pertencentes a línguas ocidentais? Mas essas espécies têm nomes nas línguas ameaçadas de extinção. Esse fato em si já justifica o esforço de preservação e de estudo desses milhares de línguas em declínio.

Shannon Sorensen