Interferir no texto do autor é uma questão muito delicada. Qual deve ser a postura do revisor: preservar ao máximo o original ou ser um coautor velado? No decorrer do estágio, fui intuitivamente formando meus critérios e hoje sou capaz de explicitá-los pra mim mesmo — o que é ótimo como exercício de autoavaliação.

Quanto mais objetivo o texto, mais interfiro. Costumo ser muito presente nas interferências textuais e, como autores, acredito que devemos ter a humildade de reconhecer que nossos textos podem ser constantemente aperfeiçoados — por terceiros ou por nós mesmos. It’s a never-ending process, I’m sorry.
Cada texto revisado é sempre um aprendizado! E isso não tem a ver com (in)experiência; tem a ver com ser receptivo a outras escritas, outros estilos, outras cabeças. Revisar é um pouco baixar o espírito do próprio autor. Nesse processo, de certo modo passamos a enxergar com a lente do autor, a ver como sua visão de mundo se reflete e é incorporada na escrita.

Assim, na prática procuro propor soluções que conciliem a ideologia do autor e a minha. Mas isso nem sempre é possível. O que é certo e errado? Não acredito nessa rivalidade, como plano objetivo. Não é simplesmente dizer que a maçã deve ser trocada pela laranja, mas localizar as raízes da árvore, o histórico e as condições da plantação, bem como os fatores climáticos. Não adote isso como fórmula, por favor — nem sei cultivar maçãs ou laranjas. Mas, antes de me mandar plantar batatas, vamos ver o que podemos fazer juntos!
Reflita comigo: o aclamado “bom uso da língua” vem de noções hipotéticas, de condições ideais para o cultivo e o consumo. Mas nem sempre chove ou faz sol, conforme a previsão. Não digo, com isso, que devemos incendiar nossos manuais. Por que não reconhecer que a coivara, por exemplo, além de ilegal, é nociva ao ambiente? Como diz minha colega Marilena Moraes, estamos sempre rodeados de Cegallas, Becharas, Aurélios e Houaisses. Eles não só são algumas de nossas referências impressas como sobretudo estudiosos que se dedicam a sistematizar o conhecimento intuitivo que todos temos a respeito da língua.
Eis que nós, revisores — ou, eventualmente, tradutores da nossa própria língua — somos justamente profissionais da linguagem licenciados por nossa ampla fundamentação linguística. Somos como juízes de uma partida de futebol, cabendo-nos arbitrar os usos da língua. Somos constantemente vaiados, xingados e recebidos com tomates porque a torcida e os jogadores nem sempre estão dispostos a ouvir nosso apito. Evidentemente, eles têm também seus momentos de razão: há momentos em que pegamos leve ou pesado demais, erramos e acertamos. Afinal, estamos em um contexto social, em que os juízos de valor existem, sim!
Como leitores, costumamos trabalhar com questões bastante objetivas de correção, sobretudo no que diz respeito à ortografia e à acentuação, mas que para mim são menores uma vez estão presentes apenas na superficialidade do texto. Reconheço a importância de unificar nosso sistema ortográfico; mas penso também que, em última análise, a ortografia e a acentuação são os acessórios finais de um texto, a maquiagem da escrita. Nossa inspiração não vem do mundo supremo das ideias, mas da nossa gramática, do nosso conhecimento intuitivo e sistematizado acerca da linguagem sobre a qual caminhamos todo dia.
Em nome da língua portuguesa, por favor nos chamem de revisores, e não de corretores!
