Cliente: – Será que você poderia traduzir esse documento para um português que servisse tanto no Brasil quanto na Europa?Cliente: – Traduzi esse documento para o português de Portugal e estava precisando publicá-lo no Brasil. Você poderia fazer isso? É só dar uma revisada rápida nele.
Tenho certeza que não fui a única a ouvir essas duas solicitações. E tenho certeza também que quem sugere isso não tem a real noção da grande diferença que separa os dois “idiomas”.
Em 1990, Brasil e outros tantos países que usam o português assinaram o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa que tem por objetivo criar uma ortografia unificada para o nosso idioma. Essa unificação aproximaria principalmente o Brasil do restante dos países que usam o português, já que entre os outros as diferenças são bem menores e daria ao português maior influência global frente ao inglês e ao espanhol.
O acordo assinado em 1990 já teve sua entrada em vigor adiada várias vezes pois Portugal, cuja participação é fundamental já que é o país de origem da língua, até hoje não cumpriu todos os requisitos necessários e nem dá sinais de que irá cumpri-los num futuro próximo.
O que um acordo como esse traria de conseqüências para o nosso mercado de trabalho? A unificação da língua seria benéfica ou maléfica para os tradutores de/para português? Com certeza daria muito trabalho e dinheiro para os revisores que ficassem responsáveis pela atualização dos textos conforme as novas regras. E seria bem rentável também para professores de português e demais profissionais que fossem capazes de reciclar todo o resto da população. Já para os tradutores, acho que demoraria muito até que um texto pudesse ser traduzido de maneira a ser totalmente entendido por qualquer falante do português. Além da construção gramatical, a diferença entre os dois idiomas está principalmente no vocabulário.
Li recentemente um romance escrito em português de Portugal e confesso que em algumas partes tive dificuldade de entender o que estava sendo dito. E era apenas um romance contemporâneo cuja trama se passava em torno de uma mulher, seu trabalho e seus relacionamentos. E se fosse um documento técnico em que a compreensão total do que está sendo dito é realmente importante?
Não posso imaginar como seria possível unificar nosso português com o português europeu.
Idiomas refletem as culturas que os incorporam. Alterar um idioma a ponto de unificá-lo a outro sensivelmente diferente seria como unificar duas culturas cujas raízes podem ter sido as mesmas, mas que já trilharam um longo caminho desde a separação e hoje funcionam de maneira independente. São mundos diferentes, realidades diferentes e que dessa forma se expressam de maneira diferente. Nosso idioma já incorporou inúmeras palavras que foram criadas ou importadas de outros idiomas mas porque a cultura ou a vida dos falantes fez com que isso acontecesse. Essa adesão de palavras não se faz por obrigatoriedade. É totalmente espontânea. É o contato com outras culturas que nos faz adotar outros costumes, e até mesmo outro vocabulário.
Pode ser que o dia da unificação chegue. Por enquanto me limito a responder a nossos clientes que infelizmente o que eles querem não é possível e passo o link de um artigo escrito pelo Fabiano para a Ccaps Newsletter que dá maiores detalhes sobre as tais diferenças. Se ainda não leu o artigo, clique aqui e dê uma olhada.
