Pelo menos essa era a ideia veiculada pelos regulamentos do Departamento de Justiça dos EUA que implementavam o Título VI da Lei dos Direitos Civis de 1964, o qual “proíbe que beneficiários de dinheiro do governo pratiquem atos discriminatórios com base na nacionalidade, o que também inclui discriminação de natureza linguística” (extraído de Title VI Enforcement to Grow under Obama, Common Sense Advisory).
A lei, no entanto, nunca foi aplicada adequadamente nem é seguida na maioria dos estados norte-americanos. Por quê? Bom, aqueles que sofrem discriminação, nesse caso, não dominam o inglês e, portanto, nem sempre têm os recursos apropriados ou conhecem as ações que poderiam garantir seu direito de entendimento. Alguns exemplos clássicos da falta de compreensão linguística envolvem os gabinetes do Departamento de Veículos Motores, Hospitais e Bem-Estar, entre outras organizações.
Até agora, as instituições citadas só “saíram pela tangente” quando o assunto é a conformidade com o Título VI. Mas há quem diga que tudo isso está prestes a mudar com a administração do presidente Obama. Em seu discurso inaugural, o Presidente fez referência à diversidade linguística e reconheceu que os Estados Unidos são “formados por todas as línguas e culturas, atraídas por qualquer polo da Terra”.

O que isso significa para nós tradutores? À medida que as agências governamentais forem forçadas a cumprir as disposições do Título VI, aumentará a demanda de fornecedores de serviços linguísticos (LSPs) para traduzir documentos para vários idiomas. De fato, o Departamento de Estatísticas de Trabalho dos EUA prevê que a contratação de tradutores crescerá até 24% entre 2006 e 2016. Os idiomas mais procurados variam de estado para estado, o que aumenta ainda mais as possibilidades.
O que isso significa para aqueles que não dominam o inglês? Como americana da Califórnia, tive a oportunidade de vivenciar o Título VI. Os gabinetes do Departamento de Veículos Motores e Bem-Estar, entre outros, oferecem formulários redigidos em inglês ou espanhol. Também estão disponíveis em línguas como o chinês ou o japonês, mas a oferta depende do local e da demanda. Segundo o Censo norte-americano, 39% dos 3,7 milhões de residentes da Califórnia dominam uma língua estrangeira, sobretudo o espanhol. O principal receio é que esses imigrantes não tenham o mesmo acesso aos recursos. Com a aplicação irrestrita do Título VI, daremos a esses imigrantes a oportunidade de melhorar os padrões de qualidade de vida e contribuir para a sociedade.
O que isso significa para a economia? Entre esses grandes grupos de imigrantes há também um grande potencial econômico a ser aproveitado pela iniciativa privada. Antes de vir para o Brasil, tive uma breve carreira como promotora de eventos. Éramos responsáveis por atingir o público distribuindo panfletos e anunciando produtos específicos. O local dessa estratégia de marketing era Los Angeles. Adivinhe qual o requisito mínimo para trabalhar na posição. Falar espanhol! Conseguimos atingir uma grande massa de consumidores simplesmente imprimindo os materiais de divulgação em inglês, de um lado, e em espanhol, do outro.
Esses panfletos bilíngues são quase uma regra se você quer vender produtos em Los Angeles e na maioria das cidades dos EUA. Os falantes do espanhol com quem conseguimos conversar não só ficavam agradecidos pelo nosso esforço em atingi-los, mas também se mostravam bastante dispostos a comprar os produtos, pois conseguiam entender o que estava sendo vendido. A adoção do espanhol como segundo idioma oficial da Califórnia é a exceção. Se o resto do país, ou do mundo, adotasse essa filosofia, o potencial de vendas seria ilimitado.
Como “gringa” no Brasil, posso falar de cadeira sobre a frustração que é tentar obter algo oficial originalmente escrito em outro idioma. A compreensão linguística é essencial para o pleno funcionamento em qualquer sociedade. Se esse direito for adotado nos EUA e em outros países, não haverá barreiras para os avanços econômicos, sociais e de saúde que poderemos alcançar.

Shannon Sorensen