Pesquisas científicas recentes sugerem que nossa capacidade de soletrar está diretamente associada aos genes, e não ao nível de escolaridade ou à motivação para estudar.
O gene KIAA0319 (poderiam ter criado um nome mais criativo, né?), que se encontra no cromossomo 6 do nosso DNA (para responder à sua curiosidade), tem se mostrado diretamente responsável por nossa capacidade de compreender e reproduzir as palavras; ou seja, a maneira como lemos e soletramos.
Segundo Tony Monaco, cientista do Wellcome Centre Trust for Human Genetics da Universidade de Oxford, nossa capacidade de soletrar está em parte vinculada ao DNA. “Cerca de 60% da variação da capacidade de soletrar se encontra nos genes”, explica Monaco.
Soletrar e escrever são as tarefas mais complexas do cérebro. A explicação é que as duas atividades são invenções relativamente novas. “Elas foram criadas há somente 5.000 anos e estão relacionadas à competência linguística, desenvolvida há 30.000 ou 40.000 anos”, afirma John Stein, professor de neurociência da Faculdade de Medicina da Universidade de Oxford. “O resultado é que muitas pessoas são incapazes de ler ou soletrar.”
Todos possuímos o gene KIAA0319, mas o que os cientistas vêm descobrindo é que 15% das pessoas têm uma ligeira variação na constituição cromossômica. Essa variação pode levar a diagnósticos graves, como dislexia, ou a quadros menos acentuados, como o déficit para ler e soletrar. Segundo o professor Monaco, esse gene é responsável por conduzir as células do cérebro para o córtex. Quando não trabalham adequadamente, as células cerebrais se perdem, vão parar no lugar errado e comprometem nossa capacidade de processar informação. Esse processo ocorre ainda no útero; acredita-se, portanto, que a competência para soletrar é determinada no nascimento.

De acordo com o professor Stein, ocorrem dois processos quando soletramos uma palavra. Primeiro, o cérebro precisa processar a visualização gráfica da palavra e, em seguida, sua sonorização. Essas informações visuais e fonéticas são então capturadas pelo léxico (nosso dicionário mental), localizado no giro angular logo acima do ouvido. Essa zona processa dados, sinaliza como grafar a palavra e por fim transfere essas informações para a região do cérebro que controla os movimentos que nos permitem escrever a palavra. Nossa, já estou exausta! Não é de se espantar que soletrar exija tanto esforço da massa cinzenta.
O circuito que nos dá a capacidade de soletrar geralmente se localiza no lado do cérebro que controla a fala e a escrita. Para os destros, ele se localiza no lado esquerdo; para os canhotos, no lado direito.
Cientistas dizem também que palavras irregulares exigem bem mais do cérebro, dependendo da pessoa que está aprendendo. Alguém cujo aprendizado é mais visual tem muito mais dificuldades de escrever palavras irregulares. Aprendizes fonéticos costumam ter mais facilidade para escrever palavras irregulares porque traduzem as palavras em sons.
Mas, para a Dra. Silvia Paracchini, do Wellcome Trust Centre, “isso é nitidamente apenas uma peça do quebra-cabeça que explica por que algumas pessoas têm uma competência de leitura menos desenvolvida que outras ou desenvolvem dislexia. Deve haver muitos outros fatores, mas nossa pesquisa já aponta pistas valiosas”.
Para os “crânios” de plantão, mais informações no site http://www.ox.ac.uk/media/news_stories/2008/081001.html

Shannon Sorensen