
Todo ser humano possui certa disposição natural para se retrair diante daquilo que desconhece, entrando, na maioria das vezes, em um estado permanente de embaraço e mal-estar. Por outro lado, assim como estamos condicionados a sensações de inquietação veiculadas pelo estranhamento, não podemos descartar as possibilidades de nos identificar ao viver experiências com as quais não temos qualquer familiaridade. Ao longo da vida, eventualmente lidamos com situações de alteridade, seguidas por uma possível afinidade.
A tentativa de imersão de um indivíduo em uma cultura alheia se enquadra perfeitamente neste panorama. Como recorte disso, a produção da cineasta norte-americana Sofia Coppola, Lost in Translation, cujo título no Brasil é Encontros e Desencontros, retrata tal questão de forma absolutamente genial, além de ampliar a nossa concepção acerca daquilo que pode envolver uma tradução.
Como se consolida esse efeito do impacto psíquico desenvolvido a partir do contato com o desconhecido? De onde provém a capacidade do homem para definir e reconhecer tudo aquilo que lhe causa impressões jamais vistas? Tais questões foram levantadas por Freud em alguns de seus trabalhos analíticos sobre as nossas faculdades mentais mais obscuras. Em O Estranho (1919), pressupõe-se que todos os aspectos e situações que não tenham qualquer coerência com a vida de alguma pessoa encontram a sua averiguação em seu par antitético, ou seja, o familiar. Desta forma, diz-se que o estranho representa o conhecido – que habita o inconsciente, representa os desejos mais ocultos, e precisa ser decifrado.
Toda a narrativa do filme gira em torno de Bob e Charlotte, vividos respectivamente por Bill Murray e Scarlett Johansson, que souberam fazer transparecer claramente a apatia e angústia inerentes aos seus personagens. O cenário principal é o Japão, marcado por suas tradições milenares que se misturam à alta tecnologia e à experiência de um futuro próximo, porém ao mesmo tempo distante – o que contribui para acentuar as contradições da realidade e ressaltar a idéia de transição no tempo e espaço.
Neste caso, a história procura destacar os pontos diametralmente opostos na relação do ser com uma cultura distinta, bem como em sua relação com o outro existente dentro de si. Assim, a necessidade de se traduzirem as diferenças culturais e o sentido dado pela divisão do ser com a sua outra parte aparecem de forma intensa, determinando o estado de estranhamento permanente e fundamentando a excitação das figuras na tela.
Em algumas cenas, não há legenda das falas em japonês, levando os espectadores a se sentir exatamente como os personagens: inseridos em um ambiente completamente novo e estranho.
Bob, um ator de Hollywood em fim de carreira, se envolve na gravação de um comercial para uísque, recebe um turbilhão de instruções do diretor, mas a tradutora o orienta apenas a olhar para a câmera e pronunciar a sua fala. Perdido, ele se depara com a impossibilidade de não ser compreendido. Com sua alienação, sente-se transformado em um mero garoto-propaganda, e ainda por cima insatisfeito no relacionamento com a esposa.
A recém-casada Charlotte acompanha o marido, um fotógrafo famoso, em um trabalho em Tóquio. Sozinha e colocada em segundo plano, se afunda em suas dúvidas e anseios a respeito do casamento, expressando sua indignação ao tentar encontrar palavras para sua hesitação. Charlotte e Bob se conhecem a partir de um desapontamento, do medo e do desamparo que vivem. Os dois buscam uma explicação para a realidade que os rodeia e uma maneira de traduzir o que experimentam. Mas acima de tudo, vivem a conflitante correspondência com o outro de si mesmos.

Cada um tem que lidar com a sua condição de perplexidade diante do desconhecido, motivado por diversas percepções em relação àquilo que lhes transparece de forma alheia. As divergências étnico-culturais são bastante claras e marcadas a cada passagem, conectando os personagens por meio da vivência de uma situação de desconforto. Entre trocas de olhares e diálogos breves, Bob e Charlotte reconhecem algo semelhante em suas vidas, e segue-se uma relação de amizade íntima e familiar, que abre espaço para as representações que insistem em atormentá-los e que carecem de tradução.
O filme trabalha, por um lado, com os desencontros consequentes da dificuldade na tradução de uma língua, e por outro, com as impressões e sentimentos a partir do contato com o estrangeiro, que produz agitação e instabilidade, tal como observado por Freud. Contudo, não deixa de tratar das chances de um encontro possível, à medida que algo pode ser traduzido como familiar ou se torna reconhecível.
Traduzir não se limita somente à ação de transladar algo de um idioma para outro. A questão vai mais longe do que isso e envolve aspectos relativos à percepção e ao histórico de cada um. Traduzir é reconhecer, tornar aceitável para a mente aquilo que não é familiar, que causa estranhamento.
As relações pertinentes à vida e ao desconhecido se configuram a todo o momento desta forma. A cada dia o homem descobre algo novo que necessita de demonstrações, porém que nem sempre ou, provavelmente, nunca terá explicação. Deste modo, não restam dúvidas de que a existência se enquadra em um sistema onde os desencontros são definitivamente certos, ao passo que os encontros são apenas possíveis.

