Depois de um breve hiato, vamos à segunda edição desta pequena saga lingüística. ![]()
No primeiro post – que por sinal teve uma boa repercussão, algo que me deixou muito satisfeito – falei um pouco do primeiro contato travado pelo aluno de Letras com as matérias da faculdade. Mostrei o quanto de inglês é preciso saber para se ingressar no curso e destaquei a importância de se ter uma certa intimidade com o texto escrito.
Falemos um pouco agora dos campos de especialização. A maioria dos cursos de Letras no Brasil tem como complementação a Licenciatura, monolíngüe ou bilíngüe, grupo de matérias destinado àqueles que querem ser professores. Algumas faculdades oferecem a opção de Secretariado Executivo como habilitação em Letras, para quem deseja utilizar competências lingüísticas em empresas. E há algumas instituições que oferecem especialização em outros campos profissionais, como é o caso da Tradução. Já que esse o campo em que me especializei, vou dedicar esse espaço para falar um pouco dele. No próximo post pretendo comentar sobre os demais.
Eis mais algumas das coisas que aprendi no curso de Letras quando cursei as matérias de tradução (inglês/português):
4. Existem traduções para todos os gostos
O tradutor é um profissional versátil. Foi essa a primeira coisa que pensei quando dei uma olhada na grade curricular das matérias de tradução. Mesmo dentro do campo da tradução, existem diversas opções de especialização. Cada matéria que cursei enfocava a tradução sob um campo de trabalho específico.
Por exemplo, em Tradução de Ficção, tive a oportunidade de estudar técnicas de tradução e versão específicas para textos literários, como aprender a cortar a grande seqüência de qualificadores do inglês (frases médias com 15 adjetivos funcionam bem em inglês, mas ficam horríveis em português).
Já em Tradução para Legendagem, tive a oportunidade de trabalhar com programas específicos de marcação de tempo e composição de legendas, numa variedade de programas, desde sitcoms americanos até desenhos animados.
Em Teorias da Tradução, pude aprender um pouco mais sobre o ofício do tradutor, a trajetória da profissão no Brasil e no mundo, e como este deve se posicionar no mercado.
Em Versão, estudei técnicas específicas e particularidades gramaticais para traduzir da língua materna para o inglês.
Essas são apenas algumas das matérias: ainda há Tradução Jurídica, Tradução para Informática, Tradução Técnico-Científica, dentre outras. Dá pra agradar a gregos e troianos.
5. Português ou Matemática?
Acho que essa pequena fórmula matemática já diz tudo:

O segredo de um bom tradutor é, antes de mais nada, experiência. É preciso anos de prática para se incorporar as melhores técnicas e ficar calejado com certos tipos de estruturas e textos. Associe-se a isso uma boa formação acadêmica, que ensine de fato as principais técnicas de tradução (na faculdade, tive uma matéria só sobre isso, chamada Técnicas de Tradução), embasamento gramatical e métodos avançados de pesquisa na Internet. Por último, basta dividir isso pelo grau de envolvimento que o tradutor tem com a cultura alvo e o nível de conhecimento da língua para a qual traduz. Junte tudo isso, adicione um tempero da habilidade individual e pronto: está servido o bom tradutor.
6. É preciso acompanhar o ritmo (e evoluir junto com ele)
Algo que se enfatizava muito no curso de tradução era a prática. Na vasta maioria das matérias que cursei, devíamos entregar por semana 2 traduções, cada uma com uma média de 400 palavras… no início.
À medida que íamos progredindo, o número de palavras aumentava, bem como o grau de dificuldade das traduções. E para melhorar, só havia um segredo: era preciso dedicar tempo toda semana para cumprir as tarefas, participar ativamente da aula, dando sugestões e tirando dúvidas.
Ah, e revisar constantemente o trabalho para aprimorá-lo e aprender sobre os erros (para uma discussão sobre a importância da revisão, leia esse post, também de minha autoria).
Por fim, precisamos cursar 2 matérias de estágio. Na primeira, devíamos produzir 8.000 palavras por mês e na segunda 14.000 palavras. Esses são níveis de produção médios que se espera de um tradutor. Consegui arranjar bastante material para as duas matérias, pois comecei a estagiar na Ccaps, onde trabalho até hoje. ![]()
Bem, por enquanto, isso é tudo. Espero que essa segunda parte tenha esclarecido boa parte das dúvidas de alunos com relação à tradução na faculdade de Letras. Vejo vocês no terceiro e último post. Não percam!
